Resultado de estudos realizados em arquivos existentes na cidade de Goiás, a editora Trilhas Urbanas acaba de publicar o livro O Ecletismo na Arquitetura de Vila Boa. O livro traz em sua primeira parte, um estudo sobre o desenvolvimento da arquitetura eclética no Brasil e sua chegada a Goiás, através principalmente da implantação da Estrada de Ferro Goyaz. Em um segundo momento, apresenta um conjunto de projetos ecléticos desenvolvidos na antiga capital, no decorrer da década de 1920, em sua maioria com o objetivo apenas de modernizar as fachadas de residências, que continuam a apresentar seu interior com as características e materiais tradicionais que marcam a cidade desde o século XVIII.
domingo, 2 de junho de 2019
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
novo livro sobre Goiânia
Os textos organizados e
apresentados nessa publicação representam de certa forma, a produção inicial
relativa à história de Goiânia, desde o Relatório elaborado pela comissão
encarregada da escolha do local para sua implantação até a análise feita, cinco
anos depois, por um de seus construtores, sobre as obras em andamento, os
planos e projetos em desenvolvimento e seus principais atores presentes,
atuantes e plenamente participativos. São apresentados também documentos
elaborados por seus dois principais planejadores, o arquiteto Attilio Corrêa
Lima e Armando Augusto de Godoy, onde é analisado aquele primeiro Relatório
para a escolha do local, são apresentados conceitos relativos à construção de
uma cidade moderna e ainda um documento onde Corrêa Lima apresenta as
diretrizes utilizadas na elaboração do plano para a construção de Goiânia.
Localizados principalmente em revistas de Arquitetura e Urbanismo publicadas no
Rio de Janeiro, tais documentos são pouco divulgados e praticamente
desconhecidos da grande maioria dos estudiosos da história da capital
goiana.
Este livro já se encontra à venda na Livraria Palavrear, no Setor Universitário, em Goiânia.
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sábado, 25 de agosto de 2018
lançamento d'O Bairro
Aconteceu nessa quarta-feira, dia 22 de agosto de 2018, o lançamento do livro O Bairro, de Dirceu Trindade, quando foram também apresentados os livros Não Lugar, de Roberto Cintra e Arquitetura Setecentista em Vila Boa, de Gustavo Coelho. O evento foi acompanhado de um debate com os autores, do qual participaram arquitetos e estudantes de arquitetura. Os livros podem ser encontrados na livraria Palavrear, em Goiânia, na livraria Leodegária, na cidade de Goiás e na livraria do Chico, na UnB, em Brasília.
segunda-feira, 6 de agosto de 2018
novos livros de arquitetura
Para o dia 22 de agosto de 2018,
a editora Trilhas Urbanas e a APUC (Associação dos Professores da PUC-GO) estão programando
o lançamento de três livros produzidos por professores da Escola de Arquitetura Edgar Graeff, da
Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
São eles:
- O Bairro, de Dirceu Trindade;
- Não-Lugares: Condomínios horizontais fechados em Goiânia, de Roberto Cintra Campos; e
- Arquitetura religiosa setecentista em Vila Boa, de Gustavo Neiva Coelho.
À oportunidade será realizado um debate com os autores sobre o tema de seus respectivos trabalhos.
Vale a pena conferir.
a editora Trilhas Urbanas e a APUC (Associação dos Professores da PUC-GO) estão programando
o lançamento de três livros produzidos por professores da Escola de Arquitetura Edgar Graeff, da
Pontifícia Universidade Católica de Goiás.
São eles:
- O Bairro, de Dirceu Trindade;
- Não-Lugares: Condomínios horizontais fechados em Goiânia, de Roberto Cintra Campos; e
- Arquitetura religiosa setecentista em Vila Boa, de Gustavo Neiva Coelho.
À oportunidade será realizado um debate com os autores sobre o tema de seus respectivos trabalhos.
Vale a pena conferir.
segunda-feira, 23 de julho de 2018
Lenine Bueno comenta Augusto o manganês
Augusto,
metal brilhante!
Com
atenção, com carinho e prazer atravessei o século vinte em companhia do meu
amigo Dirceu, visitando lugares, humanos muito humanos, característica central
da classe trabalhadora brasileira, da Velha capital e das minas gerais,
percorrendo um itinerário bastante peculiar entre a metrópole cosmopolita e
hedonista de todos os brasis até o interior mineiro, de quietude ensimesmada
tão marcante no mundo rural brasileiro.
E ele
me apresentou pessoas, gente que trabalha, constrói e perpassa os causos e
imaginações, capazes que são - e o foram - de construir a identidade nacional,
com todos os tropeços e obstáculos colocados pela dominância de um patriarcado conservador
e ciosos de seus privilégios, capaz de tudo para mantê-los. Do Meyer a
Conceição da Barra de Minas os tropeços e obstáculos são superados com denodo,
perspicácia e alegria. A brincadeira que roda e rola ao redor e por dentro dos
estimulantes encontros de famílias, de amigos, de patrões quase empregados e
trabalhadores quase patrões nos indica um convívio fraterno onde a troca de
saberes acontece entre aqueles que chegam e aqueles que estão, fazendo com que
mesmo em ritmo lento os acontecimentos do dia a dia se confundam com a vida,
com o longo prazo, com a construção da historia.
Na
escrita do Dirceu, não se sufoca o afeto e este não se encerra nem é contido,
se levanta e se espraia nos córregos e rios dos gerais, nas ruas dos subúrbios
cariocas e nas descobertas constantes: da música, do cinema, da vida cotidiana,
incorporando os bordões publicitários no seu contexto de época e nos ajudando
também a entender aspectos inusitados de nossa história cultural, do “tipo
faceiro” salvo pelo rum creosotado, passando pelo Biotônico Fontoura, pelo
Regulador Xavier - que tinha a “confiança da mulher”-, o bonde, repaginado hoje
como veiculo leve sobre trilho - , o som da cidade, as esperas e paqueras, uma
cultura feita de sonhos, do assistir e reter aquilo que às elites endinheiradas
era objeto de prazer...
Mas o
“mundo gira e a Lusitana roda”.
E no
grande painel traçado pelo Dirceu, elementos centrais da formação de varias
gerações de brasileiros aparecem com naturalidade: o rádio - Nacional! - o
cinema de Clark Gable a Oscarito, do novelão à chanchada, passando pelos nossos
sambistas e chorões, o futebol, Albertinho Limonta, Mamãe Dolores que se forma
a partir dos preconceitos racistas que O tempo Levou, mas que na nossa doce
ingenuidade na naturalização das diferenças forjadas pelo nosso patriarcado...
E são
muitas e diferenciadas as lições. Nada mais estimulante do que saber do Adail,
que “(...) mantem sempre um comportamento antirracista, inimigo das
desigualdades, um anarquista (...) dedicando grande esforço para conviver com
esta desigualdade, tornou-se mesmo sem esta noção, um socialista”. E mais, um
brasileiro que acredita em seu país e guarda um capital de esperanças
inesgotável...
Assim,
no momento em que os capitães do mato saem de suas tocas e se põem à caça, o
presente exige a força das convicções sempre presentes na vida dos
trabalhadores. É educativo - e transformador - atentar para o cuidado presente
na transmissão do conhecimento entre todos fazendo com que especialidades se
destaquem e mesmo a força do senso comum no fazer das coisas e edificação das
idéias, como argamassa de sustentação da construção social; esta, ao lado da
solidariedade e da alegria lapidam a dureza da vida, dando condições para temperar
o aço e o sentido da esperança a esta imensa legião de humilhados e ofendidos
que construiu e constrói este pais.
Dirceu,
obrigado por nos lembrar da força do povo e dar um sentido esperançoso à vida,
tão necessário quando o ovo da serpente está por eclodir, no ano em que Bergman
faria cem anos, para nos remeter ao cinema, tão presente nas tuas memorias!
Um
grande abraço do
Lenine.
PS -
Não sei se foi delírio, mas me pareceu ouvir um chorinho nos entremeios da
escrita, misturada a um grito de gol em um Fla-Flu iniciado uns dois mil anos
antes do nada...
livro de memórias de Dirceu Trindade
Lançado nesse mês de julho de 2018, o Livro Augusto o manganês apresenta, em forma de memórias, o percurso da família Lima, na visão de um de seus membros, Dirceu Lima da Trindade. Depois de se mostrar um hábil escritor, através de seus textos e livros sobre Arquitetura, Dirceu nos apresenta este livro de memórias, discorrendo sobre o percurso de sua família, de finais do século XIX até esta segunda década do XXI. Leitura fácil e agradável, as peripécias dessa família nos levam a conhecer um outro Rio de Janeiro, diferente daquele apresentado pela história oficial da primeira metade do século XX.
domingo, 4 de junho de 2017
novo romance na praça
A mineração, as intrigas políticas e a existência de perseguidos pela inquisição no interior do Brasil, são os elementos que compõem esse livro de ficção que utiliza em sua estrutura personagens que realmente fizeram parte da história, além de fatos acontecidos na região mineradora dos Goyazes na segunda metade do século XVIII, o século do ouro, da riqueza e do poder português.
O autor, nascido na cidade goiana de Catalão, é arquiteto com mestrado em história e professor de história da arquitetura há mais de 30 anos. Tem vários livros publicados sobre arquitetura, história, poesia, contos e literatura infanto-juvenil, além de prêmios recebidos em decorrência dessa produção.
Dias de Chuva é o primeiro romance que, esperamos, não seja único.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
grande enchente do rio vermelho de 1839
em 1957 o jornal Gazeta de Goiás publicou um extenso artigo sobre a enchente ocorrida em fevereiro de 1839 que, entre outros prejuízos, destruiu a igreja de N. S. da Lapa. Esse artigo, distribuído em vários números do jornal é aqui transcrito, utilizando vocabulário e pontuação originais:
A
GRANDE ENCHENTE DE 1839
Gazeta de Goiás – 11/08/1957
Quantos de nós, entristecidos ouvem a
narração da enchente que causou sérios prejuízos a grande parte da população
desta cidade e levou a Igreja das Lapa com seus sinos badalando como se
pedissem socorro.
Segundo cremos, há acréscimo nas
notícias daquele fato, como a afirmação de que um dos sinos esteja enterrado no
lugar (chamado) Pinguelona, no Rio Vermelho.
Conforme as crônicas da época, a grande
enchente de 19 de fevereiro de 1839, também alcunhada Enchente de São José,
teve por causa não só a chuva que caia a cântaros desde o dia 14 como também
uma colossal tromba que se desfez no lugar denominado Calção de Couro a meia
légua desta cidade na direção de nordeste acrescendo que os reservatórios naturais
das águas das montanhas daquém e além do Rio Vermelho rebentaram em quatro
lugares diversos precipitando as águas em carreira vertiginosa pelas encostas
até se confundirem com as do rio que assim acrescido invadiu parte desta cidade
indo lavar a porta do sobrado da família Vieira, na rua Direita (hoje Moretti
Foggia), o Largo do Mercado, rua 13 de Maio, na Paróquia de Sant’Ana.
Na Freguesia do Carmo, o nível ia
próximo do Largo do Rosário, pela qual derivavam as águas que entravam pela rua
da Cambaúba.
Gazeta de Goiás – 18/08/1957
Trasladamos dois ofícios que em 3 de
março e 3 de maio de 1839 dirigiu ao Ministro Bernardo Pereira de Vasconcellos
o ver. Padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury então presidente da província.
“Ilmo e Exmo Sr. – Tenho a honra de
levar ao conhecimento de V. Exa. que pelas participações recebidas das Comarcas
da Província posso assegurar a V. Exa. que nada tem havido que possa ameaçar a
ordem e tranquilidade pública.
Esta cidade porém acaba de sofrer
uma catástrofe terrível causada pela extraordinária inundação do Rio Vermelho
acontecimento este que teve lugar entre 6 e 9 horas da manhã do dia 19 de
fevereiro – o Rio Vermelho corta a cidade de nascente a poente quase em partes
iguais: três pontes ofereciam a comunicação para os habitantes; e um córrego
chamado Manoel Gomes que corre para o norte e conflui no Rio Vermelho pouco
acima da ponte do meio (Lapa) aproxima-se aos portões das casas que fazem
frente para a Rua Direita tendo chovido copiosamente desde quinta feira, 14 de
Fevereiro e por isso achando-se já o Rio Vermelho bastantemente cheio, as 11
horas da noite de segunda feira 8 de Fevereiro começou uma chuva grossa sem
cessar atéas 9 horas do dia 19.
Gazeta de Goiás – 25/08/1957
Continuamos hoje, a publicação dos
ofícios enviados pelo ver. padre Luiz Gonzaga de Camargo Fleury ao Ministro
Bernardo Pereira de Vasconcellos relatando a ocorrência:
As 6 horas da manhã começou o Rio
Vermelho e o Manoel gomes a transbordar e então todos os moradores vizinhos
reconheceram o perigo e começaram a pedir socorro não só salvarem como também
salvar seus bens;
De repente desapareceram as pontes,
interrompeu-se a comunicação entre os habitantes d’aquém e d’além do rio, o
Manoel Gomes represado pelo Rio Vermelho começou a inundar os quintais das
casas da rua Direita, d’aquém e bem depressa lançava suas águas pelas portas e
janelas e entrando pelo beco chamado da Lapa (junto a casa do finado coronel
Confúcio) formou-se um grande rio, ficando circuncidadas d’água as casas dos
negociantes Joaquim Xavier dos Guimarães Francês, (avo paterno do dr. Guimarães
Natal, e Manoel Joaquim da Silva Paulista (avô paterno de Monsenhor Ignacio
Xavier) a do 1° em poucos minutos desapareceu com uma boa loja de fazendas,
secos e ferragens, a do 2° logo depois restando apenas muito arruinado um
pequeno sobrado com frente para o beco da Lapa no qual pôde salvar ele parte de
suas fazendas salvando-se ele mesmo e sua família por uma escada, que do
telhado d’uma casa térrea se lançou a janela do sobradinho caindo essa parte e
a casa térrea apenas tinha esta família sido salva; um cabo porém de 1ª linha
que se aventurou a atravessar o beco das casas do Paulista para as do
negociante Joaquim José d’Azeredo foi arrebatado pela correnteza e afogou
imediatamente; este cabo se chamava José Pereira da Silva e por sua morte
deixou inconsolável sua mãe viúva pobre e uma irmã órfã.
Logo que observei crescer
extraordinariamente a inundação, mandei tocar chamada geral e apesar da copiosa
chuva concorreram toda tropa de 1ª linha, muitos guardas Nacionais e oficiais,
todos se expuseram ao perigo para salvar os que estavam sofrendo a inundação
porém, só o cabo já referido pereceu. A chamada serviu para despertar os
habitantes d’ambos os lados da cidade, mas já sem comunicação por terem caído
as pontes; houve porém em toda parte a mesma energia, a mesma boa vontade e
todos se empregavam em livrar e auxiliar os desgraçados. A capela de N. Sra. da
Lapa solidamente edificada defronte da casa do finado coronel Confúcio (hoje
Hotel Municipal) sendo sua torre e paredes de pedra e cal, não pôde
conservar-se e aluídos seus alicerces por estar junto ao caes do rio caiu toda,
cavando o rio o próprio terreno em que ela tinha existido.
Gazeta de Goiás – 01/09/1957
O Hospital de Caridade de S. Pedro de Alcântara,
foi todo inundado, caíram seus muros e algumas paredes ficaram todas arruinadas
e perderam-se drogas medicinais da botica da casa, alguma roupa destinada para os
enfermos, mas salvaram-se todos os doentes que foram acolhidos em as casas do
Boticário do Hospital Vicente Moretti Fóggia.
A fábrica de Fiação e Tecelagem ficou
cercada e o mestre da fábrica com sua família esteve em perigo iminente dentro
do forro de uma sala, subindo a água até as arcadas das janelas e por isso
quase tocando no forro; as suas paredes eram de pau-a-pique se arruinaram, caíram
todos os muros e perderam-se muitos utensílios da fábrica. – A casa do Açougue
público perdeu todas as suas paredes de tipa socada.
Gazeta de Goiás – 08/09/1957
Aluiu-se e arruinou-se todo o cais do
rio Vermelho estendendo-se esta ruina a todas as casas que frenteava com o dito,
caindo todas sem mesmo exeptuar-se as do coronel Felipe Antonio Cardoso (hoje residência
da família André Mundim) e a do capitão José Joaquim Pulquério dos Santos (residência
da família Zacheu Alves de Castro) que pareciam menos expostas a perigos tais.
A Carioca que é uma fonte pública da
melhor água, ficou debaixo da terra do desmoronamento do morro que lhe está
contíguo. O rio Vermelho depois de inundar e destruir a chácara chamada Moinho
entrou pela rua da Cambaúva e deitou por terra 9 casas arrastando-as e seus
quintais, entrando por todos os quintais da mesma rua até os das casas do largo
do Rosário e os da rua Direita d’além do rio lançou por terra todos os
quintais.
Gazeta de Goiás – 15/09/1957
Chegando mesmo a destruir as cozinhas e
varandas de algumas, derrubando pela metade as de José Joaquim d’Almeida e de
Antônio Ferreira Lima na dita rua Direita sofrendo mesmas ruínas as do coronel
Couto e mais quatro casas em seguimento da rua. Todas as casas do beco da Lapa
foram por terra sem exeptuar as do negociante Azeredo, as do alferes Joaquim
Marcellino de Camargo e todas as mais até as do negociante João José de Souza e
Azevedo serviram de canais para as águas do córrego Manuel Gomes e soffreram
grandes deterioramentos ficando arruinadas e algumas caídas sendo destruídos
todos os quintais das casas deste lado da rua Direita até o beco chamado Dr.
Ignácio que sai no largo do Palácio.
Todas as casas da rua de Joaquim
Rodrigues (13 de Maio) que deitam os fundos para o rio desde o largo da Lapa caíram
totalmente e deste largo bem como no princípio da rua de Joaquim Rodrigues não
se passava senão a nado. Uma vala que recebendo as águas da rua Nova vai lança-las
ao rio Vermelho descendo por um beco entre os fundos das casas das ruas do
Carmo e Direita foi inundada e transbordando deitou por terra todos esses
quintais chegando a arruinar e fazer cair algumas casas inferiores da rua do
Carmo. Pela descrição de tantas ruínas que tiveram lugar das 6 horas da manhã
pode V. Exa. qual seria o perigo, prejuízo geral e clamor em vista de tanta
calamidade.
Gazeta de Goiás – 22/09/1957
Pela folha do Correio Oficial n° 162
ficará V. Exa. ao fato das providências que se deram a respeito: cumprindo-me
declarar a V. Exa. que mandei proceder a um exame e avaliação dos prejuízos tanto
dos edifícios públicos como nos particulares para levar tudo a respeitável presença
de V. Exa. esperando os habitantes desta cidade que o governo de Sua Magestade
o Imperador comovido pela desgraça de tantas famílias que se acham hoje
reduzidas quase a indigências estenderá suas vistas Paternaes e Caridosas sobre
esta porção de súbditos que se prezam de ter sido sempre amigos da ordem, e
fieis observadores da ordem. Deus guarde a V. Exa.
Palácio do Governo da Província de
Goiás. 3 de março de 1839. Ilm. e Exm. Sr. Bernardo Pereira de Vasconcellos
Luiz Gonzaga de Camargo Fleury.
Ilmo. e Exmo. Sr. Tendo se concluído o
orçamento da despeza necessária para serem redificadas as obras públicas
arruinadas pela extraordinária enchente do Rio Vermelho, bem como avaliação dos
prejuízos que em seus prédios sofreram os habitantes desta cidade junto ao rio
assim como o orçamento das despesas para ser redificada a capela de Nossa
Senhora da Lapa como tudo consta dos documentos juntos o conhece que as obras
públicas é necessário quantia de 32:170$000; a igreja da Lapa 7:000$000 e que
os prejuízos dos particulares em seus prédios é orçado em 21:971$640 rs
acrescendo que informando-me com a mais aproximada exatidão dos prejuízos que
os particulares sofreram em fazendas molhadas, trastes, dinheiro, orço em
24:000$000 rs vindo por esta conta a sofrer o público e o particular pela
inundação do rio Vermelho o prejuízo de 84:000$000 rs mais ou menos: sendo esta
capela habitada em sua maioria por homens de pouca fortuna e sendo muito
diminutas as rendas provinciais de tal maneira que o cofre provincial é suprido
pelo geral, e não há esperanças de que pelas rendas públicas se possam fazer os
concertos necessários nas obras públicas e nem os particulares pela maior parte
sem meios de redificar seus prédios arruinados, existindo ainda hoje casas caídas
cujos donos nem possibilidades tem para acautelar alguns materiaes que ainda
poderiam servir.
Gazeta de Goiás – 29/09/1957
Em tão triste e lamentáveis
circunstancias todos tem depositado suas esperanças no Paternal Governo de Sua
Magestade o Imperador e na Liberalidade da Assembleia Geral; e conhecendo eu o misérrimo
estado a que ficaram reduzidos muitos e que a Assembleia Provincial só há de
reunir em Outubro próximo futuro e que por isso suas rogativas já não poderiam
chegar a tempo do serem atendidas na presente seção ordinária da Assembleia
Geral tomei a resolução de enviar eu mesmo os inclusos documentos e o presente
ofício rogando um socorro secundário, tanto para as obras públicas como para os
particulares prejudicados. Digne-se pois V. Exa. o bem desta porção de
brasileiros que sempre presou-se de ser fiel e aderente ao systhema do governo
que felismente nos rege fazer presente tudo isso ao regente cooperando V. Exa.
com sua régia Benigna intervenção para o feliz êxito desta súplica. Deus guarde
V. Exa. Palácio do Governo da Província de Goyaz 3 de Maio de 1839. Ilmo e Ex.
Sr. Bernardo Pereira de Vasconcellos Luiz Gonzaga de Camargo Fleury.
FIM
segunda-feira, 26 de outubro de 2015
hotel municipal de vila boa: um projeto
Uma discussão que já se desenvolvia na cidade de Goiás, mesmo antes da mudança da capital para Goiânia, era a necessidade de se construir um hotel moderno e confortável para receber o grande número de turistas previsto para tempos futuros de médio prazo.
Em outubro de 1930, a administração municipal entrou em contato com Monsenhor Joaquim Confúcio de Amorim, proprietário de uma residência às margens do rio Vermelho e em frente ao monumento da Cruz do Anhanguera, propondo adquirir o imóvel para, em seu lugar edificar o hotel e um teatro novo para a cidade. O documento datado de 3 de outubro de 1930, que encontra-se disponível para consulta no Arquivo Frei Simão, da cidade de Goiás, solicitava do religioso, certa urgência na resposta, se concordava ou não com a venda do imóvel
A residência pertencente ao Mons. Confúcio, em frente à Cruz do Anhanguera, à esquerda na imagem.
Por falta de maiores informações documentais, não se tem notícia sobre qual foi a resposta do Monsenhor Confúcio – como era conhecido – mas, o que se sabe é que em 1949, portanto dezenove anos depois, o prefeito municipal solicita da Câmara a autorização necessária para desapropriar o imóvel pertencente aos herdeiros de Monsenhor Confúcio e poder, no local, construir um hotel “capaz de estar à altura dos nossos foros de cidade civilizada e centro de atração turística”.
A 20 de outubro do mesmo ano, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara apresenta parecer (n° 104) concedendo a autorização solicitada, sugerindo para tanto a busca de um acordo amigável que caso não aconteça, sejam utilizadas as “vias judiciárias”, já que tal empreendimento, a seu ver, só trará benefícios para a cidade. Em seguida, a 8 de novembro, a Câmara aprova o projeto de lei n° 60, considerando de utilidade pública o referido terreno, autorizando o Executivo Municipal desapropriar o imóvel “mediante indenização, devendo o preço ser ajustado amigavelmente com os proprietários ou judicialmente” conforme a legislação vigente. Convém observar que, desde julho já havia a Câmara autorizado um crédito de trezentos mil cruzeiros para as despesas iniciais com a construção do hotel.
Ao mesmo tempo em que corriam as discussões públicas e judiciais sobre a aquisição do terreno, a população opinava através dos jornais sobre a construção do hotel, pertinência do local escolhido e, principalmente sugerindo local mais apropriado para o empreendimento. O jornal Cidade de Goiás de 23 de janeiro de 1949 reclamava urgência na construção do hotel em decorrência da necessidade da antiga capital em ter hospedagem moderna e confortável não só para turistas em visita à cidade, mas também para vilaboenses residentes fora e viajantes de passagem para o Araguaia. Nessa data ainda não se fala sobre localização.
A 21 de agosto do mesmo ano, o mesmo jornal já questionava em artigo intitulado “onde será construído o hotel municipal?”. Informa que “esse hotel terá também em anexo um grande cinema com aparelhagem moderníssima” e que, para tanto falta somente a escolha do local para sua instalação, coisa que o prefeito anunciava para dentro de poucos dias.
Com o mesmo título, o Cidade de Goiás publicou em 4 de setembro, artigo assinado por Augusto Fleury Curado. Procurando levar o tema ao extremo da definição, tenta analisar todas as possibilidades de locais disponíveis para instalação do hotel, considerando entre outras coisas, o acesso, visibilidade, paisagem oferecida e baixo custo para o poder público. Assim, vai eliminando cada um dos largos, uns por exiguidade de espaço, outros por muito amplos, o que exigiria do poder público grandes investimentos de urbanização e ajardinamentos, concluindo por sugerir a “pequena elevação atraz do antigo prédio da Prefeitura”. Justificando sua escolha, diz Curado que
É certo que a construção ficará um pouco mais cara, mas as compensações são grandes: Goiás é cidade de clima quente. Para um prédio de habitação coletiva seria necessário que fosse escolhido local mais fresco, isolado, elevado, etc, e além disso o hotel no citado lugar dará ao viajante conforto por ser um prédio que poderá ter avarandados ao redor, vista admirável descortinando o rio, a cidade e aos fundos a Serra Dourada, é central, isolado, perto de igrejas, comércio, repartições, Fórum, enfim, satisfaz a necessidade de quem vier a Goiás, a passeio ou a serviço.
A 11 de setembro anunciava-se o adiamento nos trabalhos relativos à construção do hotel, tendo em vista a aquisição por parte da Prefeitura de uma máquina “auto patrol”, necessária à manutenção das estradas municipais, naquele momento, serviço de maior relevância.
Em 7 de outubro de 1951 anunciava o jornal Cidade de Goiás que “Vai ser iniciada a construção do hotel municipal”. Informa como local escolhido o já sabido: o terreno antes pertencente ao Mons. Confúcio, para o que já iniciariam as demolições necessárias. Segundo esse jornal,
Já esteve nessa cidade o projetista que, dentro de poucos dias terminará o projeto e demais estudos para o início da construção. Salvo modificações posteriores, o hotel deverá ter 50 quartos e 10 apartamentos, construídos com todos os requisitos de conforto e higiene. No mesmo prédio funcionará um vasto restaurante, cujo salão poderá ser adaptado para banquetes, solenidades, bailes, etc.
Apesar das informações de início imediato dos trabalhos, podemos ver novo artigo de Fleury Curado, datado de 29 de junho de 1952, em que faz novas análises e nova proposta de local, considerando a área escolhida imprópria para a implantação de equipamento urbano de tal porte. Utiliza como argumentos o custo do terreno e das obras de demolição que onerariam o projeto além de implicar em demora nos resultados; a exiguidade do terreno e de seu entorno, impedindo a implantação de área para estacionamento; a poluição do rio Vermelho e, em certas épocas do ano o excesso de pernilongos próximo às margens do rio. Finalmente, após reforçar a sugestão anterior como a que maior visibilidade daria ao governo municipal, apresenta uma outra: o terreno onde existiu o Cinema Goiano, na Praça Mons. Confúcio, que a seu ver, além de estar situado em espaço amplo, apresenta a possibilidade de duas fachadas, sendo uma para a Praça e outra para a rua das Flores.
Com relação à inclusão de um cinema (substituindo a ideia inicial de um teatro) ao programa do hotel, o prefeito Divino de Oliveira concedeu uma entrevista ao jornal O Popular, de Goiânia, no dia 16 de março de 1944, em que fala sobre a construção do hotel, a inclusão do cinema e assume a paternidade da ideia de localização dos mesmos. Aliás, foi a divulgação sobre a escolha do local que motivou a entrevista realizada pelo jornal da nova capital. Ao ser questionado sobre o hotel, o prefeito explica que
Será de dois pavimentos: um térreo e um superior. No primeiro haverá uma barbearia, um bar, galeria de entrada, refeitório, copa, quartos para o gerente e família, cozinha, dispensa, adega, etc. No superior haverá de 30 a 38 quartos assoalhados a taco, estucados, com água corrente e todo o conforto moderno, salas de estar, um terraço para frente e dois apartamentos de luxo.
Levantou a questão de que o empreendimento não seria de exclusividade da Prefeitura, mas de toda a população interessada em sua execução, criando uma sociedade anônima por cotas da qual participariam todos aqueles que se sentissem motivados para tal.
A questão polêmica da entrevista foi exatamente o item localização. De acordo com o prefeito, a área escolhida, considerada por ela a melhor, eram as ruínas da antiga catedral da cidade, localizada na praça principal da cidade, ao lado do antigo Palácio Conde dos Arcos, para o que espera a compreensão e colaboração do Arcebispo D. Emanoel Gomes de Oliveira. Quanto à construção de um cinema, afirma que “não pleitearia a construção de um cinema sobre os sagrados alicerces de um templo: isso seria um sacrilégio”,
Também não seria interessante fazer-se um hotel sobre um prédio alto de cinema quando dispomos de força elétrica para manter em funcionamento um elevador e ninguém gostaria de hospedar-se num hotel para estar subindo e descendo escadas o dia inteiro.
A não ser pelo lado cômico da situação, é de se acreditar que ninguém tenha levado tal proposta a sério, sendo de estranhar, no entanto, a posição do Procurador Geral do Estado, Colemar Natal que, no mês de dezembro anterior, ao elogiar em artigo de jornal a administração desenvolvida por aquele prefeito, diz que entre os itens que compõem seu “magnífico programa de governo, avulta por certo a da transformação das ruínas da antiga Catedral num hotel moderno, necessidade imperiosa para Goiáz”.
Ruínas sobre as quais queria o prefeito Divino de Oliveira construir o novo hotel
Em julho de 1952 a Prefeitura publicou edital de concorrência pública para a construção do hotel e, no mês seguinte abriu um crédito de dois milhões e quinhentos mil cruzeiros para, além de iniciar as obras do hotel, abrir uma avenida ao longo do rio Vermelho, ligando a rua Moretti Foggia à Couto Magalhães, com as devidas desapropriações relativas aos fundos de quintais das casas da rua 13 de Maio.
Elaborado pelo escritório G. Fonseca e Cia, foi apresentado então o projeto para construção do Hotel Municipal da cidade de Goiás, em um único pavimento e com características neocoloniais, estilo já fora de uso à época e que, a não ser pelo modelo escolhido, nada apresenta que o identifique com o que se encontra hoje construído .
sábado, 28 de fevereiro de 2015
Dineia Dutra: a arte da gravura
Apesar da morte prematura, ocorrida em
1988, aos 34 anos, Dinéia Dutra foi uma das artistas mais produtivas e que
maior acervo deixou para a história das artes plásticas em Goiás, no segmento
da gravura em metal. Iniciou seus estudos no Instituto de Artes da Universidade Federal de Goiás
em 1975, graduando-se no ano de 1978 em Artes Visuais com especialização em
gravura. No Instituto, foi aluna de Cleber Gouvêa e fez parte do grupo de
artista que sempre frequentou o atelier de D. J. Oliveira, tendo a
oportunidade, com esse convívio, de aprimorar sua técnica de gravura em metal,
tendo em vista a importância desse artista como professor dessa técnica e mesmo
da qualidade do acervo produzido por ele mesmo como gravurista.
O Matemático: gravura em metal de 1982
De 1975 a 1987 Dinéia participou de 24 exposições, sendo a maioria delas
em galerias de Goiânia, além de expor também em Brasília, em São Paulo e no Rio
de Janeiro. Produziu quatro álbuns e recebeu cinco prêmios em Mostras e Salões
tendo em vista a qualidade técnica de sua produção.
Apesar do empenho e da pesquisa no desenvolvimento de uma produção
artística baseada na gravura – principalmente a gravura em metal – Dinéia
dedicou-se também, se bem que em menor escala, à pintura sobre tela, técnica em
que seu trabalho foi pouco divulgado, ficando sua produção restrita ao acervo
de alguns poucos amigos. Figuras humanas e naturezas mortas foram os temas
utilizados nessa técnica, enquanto que na gravura, houve sempre uma variedade
maior de propostas temáticas, com preocupações sociais, de gênero e séries
voltadas para a representação de atividades infantis.
Família: preocupação social no trabalho de Dinéia Dutra
Ao se abordar a produção artística de Dinéia, é possível levantar algumas
questões relacionadas à sua preocupação com o discurso de gênero e ao
engajamento político da artista como pessoa atuante e de grande envolvimento
com as questões sociais. Através de algumas de suas gravuras é possível
perceber questões como a da maternidade, encontrada no trabalho de mesmo nome
por um viés relacionado ao gênero e também, como pode ser encontrada em outro
trabalho intitulado “Família”, onde uma denuncia social aparece com
características bem mais expressivas que a questão percebida na gravura
anterior.
Uníssono: tema infantil
Relacionamentos, crendices, religiosidade, trabalho, são temas abordados
com intensidade pela artista, assim como questões vividas e vivenciadas na
infância, como os jogos infantis, a música e a representação teatral.
O potencial do trabalho elaborado por Dinéia Dutra pode ser visto não
apenas na técnica e no desenvolvimento do processo de produção e definição da
temática, mas também na maneira e na preocupação com que a artista trabalha a
composição e as cores, quando as utiliza em cada trabalho. Em decorrência de
material de ateliê preservado, é possível ver a maneira como as cores eram
trabalhadas principalmente nas gravuras com temática infantil, onde a
sequência, composição e seleção de tonalidades eram procuradas com o máximo
rigor, inclusive com a utilização de canetas hidrocor sobre as provas, na
tentativa de visualização das várias possibilidades de cor. É possível perceber
também a interferência em algumas provas, onde a artista inseria novos
personagens na tentativa de elaborar melhor a composição e o equilíbrio da
imagem.
Hoje suas gravuras aparecem no acervo dos principais museus e galerias de
Goiânia, assim como de várias coleções particulares em várias cidades
brasileiras.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
frei Confaloni e arte mural
Processo
artístico em que Confaloni esteve envolvido por praticamente toda a sua vida
como pintor, não podemos deixar de mencionar, foi o afresco. Trata-se de uma
técnica de pintura mural, cujo nome provém do italiano fresco, consistindo na pintura executada, geralmente sobre uma base
preparada com gesso ou mesmo com uma nata de cal ainda úmida, onde o artista
trabalha utilizando pigmentos puros diluídos em água. Em decorrência dessa
maneira de aplicação da tinta sobre a base especificada, as cores penetram no
revestimento e, ao secarem, integram-se ao suporte em profundidade, deixando de
ser uma simples pintura, passando a integrar a superfície na qual foram
aplicadas. Nesse caso, o suporte para esse tipo de pintura pode ser uma parede,
um muro ou mesmo o teto de uma edificação, sendo que a durabilidade do trabalho
será tanto maior quanto mais seco for o clima da região, pois, em regiões de
clima úmido a possibilidade de rachaduras nos suportes – parede, muros ou tetos
– com prejuízo para a pintura é muito maior.
Segundo
Tirello (2001, p. 72), o afresco
é a pintura executada com
pigmentos destemperados, simplesmente com água pura sobre, sobre uma argamassa
ainda fresca. O processo do afresco usufrui a propriedade da cal de formar –
com a areia, a água e as cores – uma estrutura cristalina, resistente e
impermeável após a secagem.
Demanda,
esse processo, o uso de uma paleta de cores predominantemente minerais quase
(no dizer de Tirello) constantes e previsíveis. Já no século I, em seu Tratado
de Arquitetura, Vitrúvio (2006, p. 268), ao falar sobre os revestimentos em um
edifício diz que, no caso do afresco
as cores, quando são aplicadas
diligentemente com o revestimento húmido, não desaparecem, mas, por isso mesmo,
permanecem para sempre, porque a cal, ao ser cozida nos fornos, esvaída de água
e com porosidades, obrigada pela secura, apodera-se de tudo o que nela por
acaso toca; e, ao tornar-se sólida, congrega partículas ou elementos nas
misturas caracterizadas por várias propriedades, sendo formada por todas essas
partes do todo, de tal maneira que, ao secar, surge revelando as qualidades que
lhe são próprias.
Observa-se
ainda que não basta ao artista muralista o conhecimento da técnica e do
processo de preparo das cores. Esse tipo de trabalho requer ainda um bom
entendimento de composição e uso racional do espaço disponível, tendo em vista
a distribuição harmônica de planos e ângulos de visada.
E
foi exatamente o reconhecimento quanto ao valor do trabalho desenvolvido por
Confaloni no uso dessa técnica que despertou no bispo de Goiás o interesse por
ver afrescos de sua autoria expostos nas paredes da igreja do convento
dominicano da antiga Vila Boa. Observa-se ainda que, mesmo não sendo avaliado
previamente, o clima de Goiás era um fator que contribuía grandemente para o
desenvolvimento de tal processo artístico.
Afrescos da igreja do Rosário, em Goiás.
De
acordo com Silveira (1991, p. 24),
É no afresco “Jesus Cristo
Crucificado”, realizado três anos depois, durante a ocupação alemã, que vemos
manifestados os primeiros avanços do que seria o seu estilo característico
(...). É principalmente nas faces das figuras, nos pés de Cristo e no
tratamento do segundo plano que vemos pela primeira vez o nascente estilo do
artista, marcas de sua personalidade impressas na arte da pintura sacra.
No
entanto, apesar de já aparecerem nesse afresco as características que marcariam
para sempre sua produção, foi em um outro trabalho realizado cerca de dezesseis
anos mais tarde, para a mesma capela de São Pedro Apóstolo, que, ainda segundo
Silveira (1991, p. 24), Confaloni
dá mostras do vigor da técnica e
do avanço do enfoque, agora permitindo um tratamento mais solto. Nele, vemos
surgir, ainda que timidamente, o estilo que iria arrebatá-lo cada vez mais
(...). É, em tudo, um trabalho onde surpreendemos o artista antevendo sua
verdadeira arte, trilhando decididamente o caminho que o levaria longe.
Antes
de embarcar para o Brasil, frei Confaloni, na seqüência do processo de
desenvolvimento de sua formação como artista já havia participado de algumas
exposições na Itália, destacando-se entre elas, o Salão Minerva de 1948, em
Roma e de uma Coletiva em Milão, no ano seguinte.
pintura mural na capela particular dos padres Dominicanos em Goiás
Seu
primeiro trabalho artístico no Brasil, como estava previsto, constituiu-se da
execução de quinze painéis em afresco, representando a via sacra e a coroação
da Virgem, no interior da igreja de N. S. do Rosário, ligada ao convento
dominicano da cidade de Goiás. Trabalho já amadurecido em seus conceitos
estéticos e ligado às tendências do modernismo europeu que, diga-se de
passagem, foi totalmente incompreendido pela população vilaboense que chegou
mesmo a hostilizar o artista. Mas também, como não hostilizar,
se já não bastasse um padre
pintor e que, às vezes, andava em público sem batina – excentricidade máxima
para os devotos daqueles tempos – como não se chocar com aquelas “figuras
grotescas”, cujas anatomias “distorcem os ângulos de visão dos observadores?”
(Silveira, 1991, p. 31),
numa pintura que
apresentava o Cristo com uma expressão pouco usual, representava Nossa Senhora
no momento da anunciação, insinuando sua gravidez, tudo isso em meio a figuras
fantasmagóricas que mais assustavam que convenciam dos fatos religiosos ali
retratados.
painel sobre os desbravadores na estação ferroviária de Goiânia
domingo, 22 de fevereiro de 2015
A arquitetura portuguesa no Brasil
Em 1549, vem para a colônia o
primeiro grupo de padres da Companhia de Jesus, comandados por Manoel da
Nóbrega, com o intuito de colaborar na ocupação e colonização do novo
território. Tal colaboração, já definida previamente, deveria ter seu enfoque
centrado principalmente na educação, dividida, em decorrência das
circunstâncias impostas pela situação da nova colônia, em três pontos
principais: a catequese, para os nativos; a educação formal, para os filhos dos
colonos; e a formação de novos sacerdotes, criando, assim, os primeiros
seminários do novo mundo português.
Segundo John Bury (1991, p. 43),
A conseqüência lógica do duplo papel dos membros da
Companhia de Jesus no Brasil como missionários e como professores foi que,
movidos pela necessidade, eles acabaram por se tornar os mais empreendedores
entre os primeiros construtores da colônia e, em virtude de seu prestígio e
suas habilidades, os principais expoentes do desenvolvimento da arte e da
arquitetura brasileira, durante os dois primeiros séculos da colonização,
o que levou Lúcio Costa, em seu artigo “A
arquitetura jesuítica no Brasil”, a afirmar que “as obras dos jesuítas, ou pelo
menos grande parte delas, apresentam o que temos de mais antigo”, além de
representarem, “as composições mais renascentistas, mais moderadas, regulares e
frias, ainda imbuídas do espírito severo da Contra-Reforma”.
Edifício das Missões Jesuíticas no sul do país.
Próximos a esses edifícios em
severidade e formalismo, podem ser encontrados aqueles representantes da
arquitetura oficial, também com características marcadamente maneiristas.
Caminho diverso, entretanto, segue
a arquitetura característica das nossas primeiras residências. Os edifícios
residenciais do Brasil, durante o período colonial, desenvolvem-se segundo as
características próprias da arquitetura popular portuguesa, notadamente aquela
produzida nas regiões onde a influência moura mais se destacou. São métodos e
técnicas construtivas que denotam não só uma cultura, mas também um modo de
organização social próprio dos povos ibéricos que viveram sob o domínio dos
árabes.
Arquitetura residencial de caráter tradicional na cidade de Goiás
Temos, portanto, que, em todos os
aspectos, a arquitetura produzida no Brasil, dos primeiros séculos se apresenta
menos como arquitetura brasileira do que como uma arquitetura que reflete tudo
que os portugueses desenvolveram em seu próprio território.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
arquivo de projetos II
A cidade de Goiás guarda hoje um dos mais interessantes arquivos de projetos, relativos às décadas de 1920 e 1930, apresentando material desenvolvido em papel vegetal, papel linho, papel milimetrado, entre outros. Alguns foram construídos e se apresentam ainda hoje tal qual o projeto; outros estão totalmente descaracterizados e, outros ainda, supõe-se, nem foram construídos. Entre esses projetos, abrigados pelo Arquivo Frei Simão, encontramos a residência projetada por Walter Sócrates para B. Costa, cuja fachada se encontra hoje tal qual aparece no desenho.
Projeto encontrado no Arquivo Frei Simão
Datado
de 1924 – data que aparece na parte central da platibanda – este projeto
elaborado por Walter Sócrates do Nascimento é um dos edifícios ecléticos da
cidade de Goiás que mais exprimem o caráter desse modelo arquitetônico.
O
uso do porão alto, proporcionando a elevação do edifício em relação ao nível do
terreno, além do uso de serralheria artística nas aberturas de ventilação
voltadas para a via pública;
divisão
da fachada marcada por falsas colunas, organizada em três blocos de larguras
diferentes, apresentando cada uma delas, elementos decorativos diferenciados,
tanto no que se refere aos relevos em massa, como à marcenaria artística das
janelas;
escada
de acesso terminando em um pequeno alpendre cujo bloco de fachada se encontra
recuado em relação aos demais;
uso
de elementos decorativos tais como linhas curvas, frisos, festões, cimalha;
emprego
de platibanda cujo desenho se altera em função do bloco de fachada a que
pertence e,
como
já foi visto nas explicações de Nestor Goulart sobre esse modelo arquitetônico,
a implantação em um terreno de largura considerável, permitindo um pequeno
afastamento de um lado e, do outro, oferecendo espaço suficiente para a
implantação de um pequeno jardim ornamental, cujo muro, rebaixado e elaborado
com uso de elementos vazados, permite ao transeunte uma visão total do jardim.
Hoje, tanto a fachada quanto os elementos decorativos encontrados no portão e no muro do jardim lateral, são os mesmos encontrados nos desenhos.
Fachada principal do edifício
Detalhe da vazadura do muro do jardim
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Arquitetura em Goiás VI
OS NOVOS CONCEITOS DE
MODERNIDADE
Ao mesmo tempo em que a arquitetura déco se desenvolvia em praticamente
todo o mundo, novos conceitos de modernidade se apresentavam, utilizando
propostas diferenciadas, além de se apoiarem em manifestos e documentos
teóricos, o que o art déco desconsiderava, em suas propostas modernizantes.
A velocidade com que os acontecimentos políticos, econômicos, sociais e
culturais se sucediam no Brasil das primeiras décadas do século XX, provocava,
além de mudanças muito rápidas, um sério acirramento nas discussões, que, no
mais das vezes, levava a rupturas e engajamentos dos artistas e intelectuais em
uma série de linhas de pensamentos e posicionamentos teóricos. Em arquitetura,
o predomínio do grupo que defendia um caráter nacionalista, com base nos
conceitos ecléticos do neocolonial, provocava a crítica e a rebeldia daqueles
que procuravam linhas mais progressistas e menos acadêmicas, ou mesmo o que à
época era denominado “historicista”. Nesse grupo, estavam principalmente os
estudantes e os arquitetos mais jovens que viam nas discussões internacionais
uma possibilidade maior de modernização da arquitetura brasileira.
Em termos internacionais, a década de 1920 foi marcada pela realização,
em Atenas, na Grécia, do primeiro Congresso Internacional de Arquitetura
Moderna – CIAM –, que de certa forma iniciou um grupo de arquitetos brasileiros
nos debates modernistas. Foi também o momento em que Le Corbusier, teve suas
idéias divulgadas na América do Sul, a partir de uma série de palestras e
debates levados a efeito no Rio de Janeiro, São Paulo e Buenos Aires. A partir
de tais contatos, Lúcio Costa, Carlos Leão, Cármen Portinho e Vital Brazil, no
Rio de Janeiro, assim como Gregori Warchavchik, Jayme da Silva Telles e Flávio
de Carvalho, em São Paulo, influenciados pelas palavras do grande teórico
franco-suíço, passaram a desenvolver e a defender sua linha de pensamento.
A chegada de Getúlio Vargas ao poder, em 1930, trouxe para a arquitetura
brasileira a possibilidade de avanços significativos. A escolha de Gustavo
Capanema para o Ministério da Educação e Saúde trouxe para dentro da repartição
pública, os debates que já vinham ocorrendo já, há quase uma década, sobre as
questões modernistas, principalmente nas artes plásticas e na literatura.
Capanema cerca-se de nomes como Drumond de Andrade, Mário de Andrade, Rodrigo
Mello Franco e Lúcio Costa, entre outros que, além de colocarem na prática as
idéias modernistas, definem uma outra linha de pesquisa para as questões
modernas, que é o estudo sistemático das coisas relacionadas com o nosso
passado, definindo os conceitos do que seria o patrimônio histórico, além de
uma legislação de proteção ao acervo cultural brasileiro.
Nesse momento, Mário de Andrade, atendendo a uma solicitação pessoal de
Capanema, elabora o texto do “Artigo 25”, sobre a proteção do patrimônio
histórico e artístico, e Lúcio Costa assume a direção da Escola Nacional de
Belas-Artes (ENBA). Já havendo participado do movimento neocolonial e inclusive
desenvolvido projetos com essa caracterização, Lúcio Costa, ao assumir a
direção da escola, estava em franco entusiasmo com os conceitos modernistas,
levando para aquela instituição de ensino, vários arquitetos vinculados ao novo
processo arquitetônico. Grandes vão ser as desavenças entre modernistas e
neocolonialistas dentro da escola, que culminam na demissão de Lúcio Costa, no
ano seguinte. De acordo com Lauro Cavalcanti (2001, p.14)
os “modernos”
são considerados “dignos” pelo estado de tornarem “digna”, em seu nome, a
produção que sofrerá uma operação de “sacralização” através da inscrição nos
Livros de Tombo e de uma legislação especial que impede o seu desaparecimento
ou descaracterização. Adquiriram, também, a prerrogativa de opinar em
construções no entorno de bens tombados. Na prática, tal função conferiu-lhes o
papel de planejadores não só das cidades históricas, como também da área
central da maior parte das capitais.
Os conceitos de modernidade e desenvolvimento, que passam a representar o
governo Vargas, determinam a implantação e o desenvolvimento no país, de duas
correntes distintas dentro do processo evolutivo da arquitetura brasileira. Não
havendo por essa época nada que as separasse, as tendências tanto do que hoje é
conhecido como “modernista” quanto como “art déco”, eram à época caracterizadas
pelo título de “arquitetura moderna”, em oposição radical aos conceitos da
arquitetura eclética. Revistas especializadas desse período apresentavam suas
diferenças como resultantes de suas origens, sendo o déco citado como tendência
francesa e o modernismo como tendência alemã. E, mesmo que a modernização da
arquitetura brasileira tenha passado pelo conhecimento e aprendizagem de tais
influências, de acordo com Segawa (1997, p. 112),
a arquitetura
moderna brasileira, mesmo informada de um conteúdo internacionalista,
corresponde a um esforço de transfiguração de concepções, adquirindo cores
próprias sem se apoiar numa tradição local imediata (eclética nas três
primeiras décadas do século 20), mas buscando no passado referências de
identidade – um desafio próprio daqueles que buscam a criação e a originalidade
inerentes à contemporaneidade, mesmo enfrentando e carregando as marcas das
incoerências políticas e sociais bem como o peso das divergências ideológicas
de um país à margem.
Assim, os conceitos e estudos desenvolvidos por grande parte dos
modernistas brasileiros, sobre a arquitetura do período colonial, vão levar a
uma produção de caráter eminentemente brasileiro, mesmo que as origens dessa
modernidade estejam na Europa ou mesmo nos Estados Unidos da América. Além do
mais, com seu caráter social e ético, consegue se sobrepor e abafar, em
definitivo, a arquitetura neocolonial, que, de certo modo, ainda tentava se
manter, disputando lugar com os modernistas.
Apesar de já contar com os projetos de Gregori Warchavchik, em São Paulo,
desde 1927, o edifício considerado marco inicial de desenvolvimento da
arquitetura moderna no Brasil, vai ser, sem sombra de dívida, a sede do
Ministério da Educação e Saúde, de 1936, na capital federal, que contou, para
seu desenvolvimento com a participação de vários arquitetos modernistas, como
Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani
Vasconcellos, além da consultoria do mestre Le Corbusier. Também considerado
como marco de referência da arquitetura moderna brasileira, principalmente para
a crítica internacional, vai ser o pavilhão brasileiro, na Feira Internacional
de Nova York, de 1939-1940, cujo projeto elaborado por Lúcio Costa em parceria
com Oscar Niemeyer, que, segundo Cavalcanti (2001, p.407),
proporcionaram uma leitura particularizada dos conceitos desenvolvidos por Le
Corbusier, demonstrando a relatividade do que se considerava como divisões
clássicas entre função organicismo e racionalidade, confirmando o modernismo
como a vanguarda do que já se elaborava em território brasileiro. A construção
de Brasília vem, assim, coroar esse desenvolvimento, passando a partir de então,
a arquitetura moderna brasileira a se orientar, em várias direções, com
características específicas próprias a cada uma delas.
A partir de então, algumas características vão marcar o desenvolvimento
desse modelo arquitetônico, determinando alguns grupos que se sobressaem em
diferentes regiões do país e que passam a ser considerados como escolas,
sobressaindo-se entre elas, a carioca, a paulista e a pernambucana ou do
Recife, principalmente. No Recife, o nome de maior destaque vai ser o de Luís
Nunes, formado no Rio de Janeiro, no período de efervescência das discussões
modernistas, tendo como estudante se destacado nos movimentos pela permanência
de Lúcio Costa, na direção da ENBA. Foi o primeiro arquiteto a desenvolver
projetos modernistas no nordeste, inovando no uso de materiais e nos conceitos
formulados no período em que esteve à frente da Diretoria de Arquitetura e
Construção de Pernambuco. Sua morte prematura, aos vinte e nove anos, se
por um lado encerrou o desenvolvimento de seus trabalhos, não foi, no entanto,
empecilho ao desenvolvimento do modernismo no nordeste, tendo continuidade
através de outros arquitetos incentivados pelo trabalho pioneiro de Nunes.
No caso paulista, a proximidade com o Rio de Janeiro e a participação nos
amplos debates e discussões em desenvolvimento, na capital federal, não se
apresentaram como impedimento a uma produção arquitetônica de características
próprias, evoluindo-se praticamente em paralelo àquela. Destaca-se, dentro da
chamada escola paulista, João Vilanova Artigas, seguido de perto por Paulo
Mendes da Rocha, entre outros. Formado pela Escola Politécnica de São Paulo,
Artigas teve seu trabalho caracterizado pela ousadia no uso do concreto, pelos
grandes vãos, além da preferência pela linha reta e ângulos nem sempre retos.
Na arquitetura paulista, o concreto se apresenta como um elemento
fundamentalmente plástico, sendo utilizado ao natural, e, em determinados
momentos seu uso tem sido rotulado como “brutalista” (Reis Filho, 1976, p.94).
Apesar de elaborarem projetos para praticamente todo o território
nacional, os arquitetos cariocas conseguiram desenvolver uma forma de trabalho
e um padrão arquitetônico que os diferenciou, ao mesmo tempo em os transformou
em referência e sinônimo de modernidade completa. E, sendo o modernismo um
movimento, calcado em conceitos e regras teóricas definidas, são, durante
várias décadas, os arquitetos cariocas os que se colocaram na vanguarda da
produção, não somente teórica, como crítica e conceitual, propondo, dentro da
produção modernista, a releitura e atualização de conceitos próprios da
arquitetura do período colonial de caráter vernacular.
A implantação do modernismo, na arquitetura brasileira, propiciou também
o desenvolvimento de uma ação integrada entre o edifício e o espaço público.
Comentando sobre a implantação de Brasília, diz Reis Filho (1976,
p.94) que, pela primeira vez, em nossa arquitetura foi possível
encontrar uma solução que resolvesse, de modo amplo e simultaneamente, tanto
problemas arquitetônicos quanto urbanísticos, permitindo com isso um aumento
nas probabilidades de sucesso em ambos os setores.
Em Goiânia, esse modelo de arquitetura passa a ter representatividade, em
princípios da década de 1950, com os projetos desenvolvidos por Eurico Godoy e
Elder Rocha Lima, dois arquitetos goianos recém formados no Rio de Janeiro e
fortemente influenciados pelo que se estava fazendo por essa época, naquela
cidade.
A arquitetura
modernista em Goiânia
A arquitetura de caráter modernista teve sua estréia, em Goiás, no ano de
1952 através do projeto de um edifício residencial desenvolvido por Eurico
Godoy, para Terezinha M. S. Bacelar, a ser construído, na esquina da Avenida 10
com a Rua 91, no Setor Central.
Esse projeto representou para a arquitetura desenvolvida à época, em
Goiânia, um coroamento no que se relaciona aos interesses modernizantes
pretendidos pelo fundador, trazendo para o estado, o movimento modernista, com
um atraso de praticamente trinta anos em relação ao que já acontecia nas outras
capitais do país.
Fachadas da residencia de Terezinha M. S. Bacelar projetada por Eurico Godoy
Além da importância decorrente do momento histórico de sua implantação na
cidade, esse projeto se apresenta com soluções extremamente simples,
O que
pode ser percebido na forma retangular utilizada e na organização espacial
tanto interna quanto externa, apenas que utilizando uma tradição ainda
desconhecida da população goianiense, no que diz respeito a essa organização.
Sendo assim, transforma o alpendre em uma varanda que ocupa toda a largura do
retângulo, abrindo o bloco do edifício com a profundidade provocada por esse
elemento, além de criar uma sensação de amplitude, com a utilização de panos de
vidro, integrando estar, varanda e o exterior da residência (Coelho, 1994, p.
4).
Percebe ainda, ao se analisar a planta desse edifício, uma certa
rigidez no que se refere à distribuição dos espaços, apesar de estar clara a
preocupação com um certo racionalismo em sua organização. A utilização de um
pequeno jardim de inverno – o que se constitui em uma das maiores inovações do
projeto – atua no edifício como um elemento de integração que amplia o espaço
da sala de estar, além de promover tanto a iluminação quanto a ventilação de
áreas internas e reduzir visualmente o corredor de distribuição.
Planta da residencia de Terezinha M. S. Bacelar projetada por Eurico Godoy
Com relação à volumetria do edifício, a primeira coisa que se pode
observar é o deslocamento do edifício em relação ao terreno, colocando a
varanda em balanço e, forçando o aparecimento de uma sinuosa rampa de acesso.
Elemento que se destaca em relação ao padrão residencial desenvolvido na cidade,
até então, é a fachada voltada para a Rua 91.
percebe-se
através dessa elevação, o caimento do telhado, em duas águas, com calha
central, convergindo para o jardim de inverno, que divide a edificação em dois
blocos trapezoidais. Dando continuidade ao movimento provocado por tais
elementos, temos no bloco que corresponde à área íntima, uma grande abertura
com esquadria que atende em uma única peça, tanto ao quarto quanto ao banheiro,
abrindo assim, quase que toda a largura da parede para o exterior (Coelho, 1994,
p. 4).
Quanto à utilização dos materiais construtivos, não houve, nesse
edifício, a adoção de nada que pudesse ser considerado inovador, dentro dos
padrões utilizados em Goiânia, até então. Apesar de já existirem esquadrias
metálicas, o que se tem aí, é a utilização de da madeira, com grandes vãos
envidraçados, sendo que, elaboradas em metal, apenas as portas que separam a
sala da varanda e do jardim de inverno. Os metais, luminárias e materiais de
acabamento são praticamente os mesmos encontrados nas demais residências do
centro da cidade. Convém observar que eram praticamente materiais importados de
outras regiões, já que não existiam em Goiânia, indústrias que atendessem a
tais necessidades.
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