sexta-feira, 8 de maio de 2009

um pouco de poesia


Em teu corpo,
braços abertos
buscando amores
paixão, dores,
me crucifiquei.

Corpo sobre corpo
pregado de frente
cruz ficado
preso em dores
braços nos braços
cruz fiquei.

Sem título – Braz José Coelho
ilustração - Roos

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Vila Boa nos jornais IV

O jornal O Democrata, de 30 de outubro de 1918, publicou a seguinte nota:

CABRAS SOLTAS

Estamos informados de que o operoso Intendente Municipal está bastante interessado pela prohibição de cabras soltas nas ruas e suburbios de nossa capital.
É uma medida de alto alcance, que consulta de perto os interesses de ordem publica e particular porque as cabras soltas prejudicam a hygiene das ruas e o asseio dos corredores das casas que, sendo abertos, constituem o habitual aprisco desses animais damninhos.
Para as cabras não ha tapume que lhes vede a entrada nos pastos e quintaes, ficando portanto as plantações sujeitas a serem devastadas pela voracidade insaciavel desses terriveis ruminantes.
A prohibição de vacancia de cabritos pelas ruas é uma providêencia que se impõe.
Entristece-nos presenciar-mos diariamente o espetaculo de um nativismo selvagem que evoca as bucolicas perspectivas do tempo em que viveu o propheta Daniel.
Hoje em dia, nessa epocha em que o conforto dos lares e os preceitos de hygiene e de saneamento moral constituem uma das mais serias preoccupações dos poderes publicos, nada ha, portanto, que justifique a exhotica presença de grandes manadas de caprinos nos logares mais publicos de nossa capital, em insolita promiscuidade com os tranzeuntes.
Dispersos pelas ruas em grande quantidade, esses animaes damnificam as plantas e arvores plantadas das praças e jardins, perturbam o transito e o socego publico com seos berros heroticos e exhibim constantemente scenas que offendem o decoro e affectam os nossos sentimentos de povo civilizado.
A feliz ideia do chefe do Executivo Municipal, em afastar de nossas vistas esse pernicioso elemento, não so vem satisfazer a uma necessidade de ordem publica, como tambem encontra um salutar amparo na lei.
E si é certo que na severa observancia da lei é que uma sociedade se aperfeiçõa, amparando o cidadão em seus direitos, a que tambem correspondem deveres a cumprir, - ahí está o codigo civil que em seu artigo 583 paragrafo 3, obriga a detenção de cabritos, carneiros e porcos pelos respectivos donos, afim de se evitar que esses animaes prejudiquem o socego publico e a propriedade alheia.
Aguardemos pois, a acção afficaz e bem fazeja do operoso governo de nosso municipio.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Planos Diretores

O século XXI trouxe, para quem trabalha com o ordenamento do espaço urbano, a ampliação de uma série de discussões que permaneceram adormecidas ou descuidadas ao longo de um vasto período de tempo. Não que o debate tenha desaparecido, mas foi possível perceber uma arrefecida, quando o esperado era exatamente o contrário, em decorrência das necessidades apresentadas.
A criação do Ministério das Cidades e as novas exigências quanto ao planejamento e ordenação dos centros urbanos veio dar novo alento aos estudos, debates e mesmo a uma ampliação da atuação profissional de arquitetos e urbanistas.
Em meio a toda essa discussão, vários livros foram publicados – e novos trabalhos ainda estão sendo preparados – objetivando o incremento do debate e mesmo a orientação quanto ao que e como se comportar no atendimento às exigências decorrentes do planejamento.
Um dos livros surgidos em meio a esse processo é PLANOS DIRETORES: a experiência de Águas Lindas de Goiás (UCG, 2003) de Dirceu Trindade. De maneira didática e objetiva, o autor discute, na primeira metade do livro, questões relacionadas aos planos de desenvolvimento e de ordenação do espaço urbano, deixando a segunda metade da publicação para a análise do Plano Diretor elaborado pelo escritório Fernando Teixeira & Associados, para a cidade de Águas Lindas, no entorno do Distrito Federal.
Leitura obrigatória para estudantes de arquitetura e profissionais da área, é um livro que não pode passar desapercebido.

terça-feira, 5 de maio de 2009

iconografia vilaboense VI

Prospecto de Villa Boa tomada da parte do Esnoroeste para Les Sueste no anno de 1751

Situando o observador em um ponto mais elevado do lado do Rosário, ou seja, à margem direita do Rio Vermelho, esse desenho é o que menos mostra do primitivo arraial, detendo-se mais nos aspectos da Vila e seu total estado de abandono, considerando-se o fato de haver sido demarcado para sediar o poder e, depois de decorridos doze anos estar seu entorno ainda totalmente desocupado de construções.

Organizado como os precedentes, apresenta na parte intermediária entre a legenda e a representação da Vila, a linha de contorno, com a indicação da Serra Dourada, e na parte inferior, o Rio Vermelho, também referenciado.
É possível observar a Igreja Matriz por um ângulo diferente, destacando sua parte posterior, ainda com a referência aos locais dos consistórios das irmandades do Santíssimo e do Senhor dos Passos.
Na Vila, é possível ver, agora em posição frontal, o sobrado da Real Intendência ao lado da avantajada porta de acesso ao Quartel dos Dragões, além de uma fileira de casas que, pela posição no desenho, estariam voltadas para a Travessa do Quartel, minúsculo beco que liga o Largo da Cadeia à Rua do Horto.
Apresentando maior destaque, comparece a Capela de Nossa Senhora da Boa Morte, mostrando inclusive uma porta de acesso lateral e janelas. Caminhos mostram a demarcação do espaço público, ligando a Intendência à Capela, à Casa da Câmara e Cadeia e, descendo pelo lado contrário ao da Intendência, rumo ao arraial, provavelmente no leito da antiga estrada que demandava a Cuiabá.
Aparecem ainda algumas casas isoladas, no entorno do Largo e uma concentração de edifícios junto à Matriz, ou seja, no arraial, mostrando o que já se sabia desde a vinda do Conde D’Alva: o estabelecimento da população de maneira já consolidada no arraial, por sinal o maior da região dos Goyazes, e sua indisposição tanto para acatar ordens, quanto para demolir o que já estava acomodado, para construir na Vila, e eliminar de certa forma, as facilidades de acesso às catas, ao comércio e às igrejas, construídas com certo rigor.
Observa-se ainda a vegetação entremeando a área edificada e o meio do Largo.
A documentação iconográfica de Vila Boa, ao longo do tempo, tem a força de poder mostrar a maneira como foram os espaços ocupados, construídos seus principais edifícios e, principalmente ilustrar no devido momento, os fatos políticos ocorridos, principalmente nas décadas iniciais de sua estruturação.
Assim, podemos ver no primeiro desenho dessa série, o requinte de acabamento das casas estabelecidas no Largo da Matriz, único desenho em que o autor se declinou a referenciar os moradores. São construções que apresentam um esmerado acabamento nas janelas, com o uso de rótulas e treliças, não tendo nenhuma chegado aos nossos dias e das quais só tivemos notícias através desses desenhos, já que a documentação escrita dá sempre conta de construções provisórias sem qualquer preocupação com acabamento mais elaborado.
É possível também perceber, pelo outro lado da história econômica, a simplicidade com que são descritas as casas da Rua da Cambaúba, quando a Rua dos Mercadores faz uma curva para a esquerda e começam a aparecer as primeiras janelas nas edificações desse conjunto. Essa é a rua a que Bertran se refere quando diz ser o local de residência de negros forros, e provavelmente local dos primeiros assentamentos mineradores, contraponto informal ao Largo da Matriz, sede do Arraial e local de residência dos donos da mineração e do poder. Próximo aos limites urbanos da aglomeração, sedia também a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em torno da qual se congregam, da mesma forma como acontece com as demais edificações religiosas.
A massa edificada descrita nos dois primeiros desenhos demonstra não só a fixação em torno de determinados pontos, promovendo uma setorização que, em hipótese alguma pode ser considerada como intencional, proposital, ou resultado de qualquer forma de planejamento erudito. Assim, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa, dos mercadores, está a meio caminho entre a Rua dos Mercadores e a Rua Direita – dos Negócios, como aparece no primeiro desenho –, colocando no principal trecho da porção urbana da estrada que à época ligava São Paulo a Cuiabá, os comerciantes e sua igreja, com consistório de Irmandade. Nesse ponto da cidade, Bertran (1997, p.52, v. 2) supõe que

No século XVIII, estabelecessem-se as maiores lojas de fazenda seca da Capitania, com seus estoques de ferramentas para mineração, armas, munições, louças, pratarias, imagens e toda sorte de quinquilharias. Havia também os armazens de molhados e efeitos do reino, com seus tecidos, água de cheiro, papel, tintas, bacalhau, velas, etc. Devia estar por ali também o mercado de escravos, talvez como retratado por Debret, abrigado do sol, numa sala ou varanda oblonga.

Tudo isso nos leva ao entendimento de uma forma de ocupação das margens da estrada e de seu entorno imediato – e depois mais afastado, à medida que o crescimento da população ia exigindo espaços mais amplos –, com o primeiro trecho associado a uma população mais pobre, de cor e estabelecida em torno de sua igreja e confraria. O segundo trecho e intermediário aos demais, ocupado pelos comerciantes com sua igreja e irmandade e, o terceiro trecho, mais afastado das margens do rio – representando uma tradição dos núcleos mineradores – em um local mais alto e plano, mantendo inicialmente certa rusticidade das construções, implantou-se uma capela dedicada à invocação do santo do dia da instalação do assentamento, no caso, Nossa Senhora de Sant’Anna (Coelho, 2001, p. 173).
Na seqüência, e último trecho urbano da estrada, o espaço demarcado e destinado ao uso pela administração.
Forma extremamente aleatória e tradicional de estabelecimento minerador – Suzy de Mello já observava isso em 1985 – sem obedecer a qualquer plano ou traçado regulador, surge o Arraial de Sant’Anna, comprovado aqui por esses três prospectos elaborados por Tozzi Colombina como pretende Joaquim Craveiro, ou por um anônimo preocupado em registrar um momento do desenvolvimento da nascente capital, como pretende Bertran. O certo é que, não custa lembrar Argan (1995, p.235), o que define, conserva e transmite a uma cidade o seu caráter próprio é a atuação de cada um dos seus habitantes, sozinho ou em grupo, no sentido de garantir a cada elemento urbano sua integridade, opondo-se à destruição de alguns fatos construídos que representam, para ele, cidadão, todo um contexto simbólico e místico que a seu ver representam também a cidade.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

foto de arquivo

O blog da Casa Abalcoada acaba de receber, para seu arquivo, uma fotografia da cidade de Goiás, provavelmente dos anos iniciais do século XX, sem referência de autor, registrando uma tropa de burros acampada em pleno largo do Palácio, onde pode ser visto o antigo coreto cercado e a casa que foi demolida para o alargamento da travessa Joaquim Roiz, hoje rua Quintino Bocaiúva, que deveria ligar o largo ao Palácio da Instrução.
Agradecemos a doação e esperamos que outras aconteçam, não só de Vila Boa, mas tambem...

mais referências


No livro Vila Boa de Goias (Ed. Nacional/Embratur, 1979) de Tom Maia e Thereza R. de C. Maia e textos de Bernardo Elis, aparece um desenho da casa abalcoada, com a seguinte legenda:


"Também a disputar a honra de ter sido morada do segundo Anhangüera está a casa com balcão corrido aos fundos, que se debruça na outra margem do rio Vermelho, quase à frente da rua da Cambaúba, hoje Bartolomeu Bueno".

Mais uma vez é colocada a suposta propriedade da casa pelo Anhangüera filho que, até que apareçam documentos comprovando tal fato, ao nosso ver, não passa de especulação.

voltando à atividade

Depois de vinte dias de inatividade, sem drama de consciência e sem nenhum remorso pelo afastamento, estamos de volta para colocar a casa em ordem e dar continuidade ao trabalho iniciado.
De imediato, uma foto de Veneza em dia de chuva, feita do átrio da igreja de S. Jorge, projeto paladiano, situado em ilha fronteira à praça de S. Marcos.