domingo, 14 de março de 2010

patrimônio abandonado IV

O aeroporto de Ipameri

Construído e inaugurado em 1938, o aeroporto da cidade de Ipameri, serviu não só a essa cidade, mas a toda a região em seu entorno, durante vários anos. Próprio para o uso por aeronaves de pequeno porte, com o tempo foi perdendo sua capacidade, já que as pequenas aeronaves começaram a ser substituídas por outras de maior porte, exigindo pistas cada vez mais especializadas.
Hoje totalmente abandonado, o aeroporto de Ipameri encontra-se preservado em decorrência da manutenção feita pela família do ultimo funcionário que ali permaneceu. O edifício, a pista (já tomada pelo mato rasteiro), a calçada que levava os passageiros do edifício-sede até à pista de embarque, a biruta e mesmo a placa de bronze que registra a inauguração.

placa colocada ao lado da pista, registrando a inauguração

detalhe do piso em ladrilho hidráulico em uma das salas e na varanda

detalhe do piso da sala de espera, em ladrilho hidráulico com desenho déco

o lúdico alegórico: avião feito de latas, garrafas pet e rolha

quarta-feira, 10 de março de 2010

arquitetura rural de Goiás IV

fazenda Anta Gorda, na região do rio São Marcos

Dos edifícios de construção mais recente na região, a sede da fazenda Anta Gorda apresenta elementos próprios da arquitetura desenvolvida no sudeste goiano, em meados do século XX, com a utilização de alvenaria de tijolo tanto na estrutura dos cunhais quanto na elaboração das paredes, piso de cimento queimado em alguns cômodos, madeira na ala dos quartos, e ladrilho hidráulico nos compartimentos considerados nobres, além do uso de telha francesa apoiada em estrutura de madeira do tipo tesoura.

piso de ladrilho hidráulico encontrado no alpendre da casa

Na fachada principal, aparece um estreito alpendre que ocupa toda a largura do edifício, apoiado em pilares, onde se percebe alterações radicais, já que, segundo informações do proprietário, existia uma arcada com elementos decorativos fazendo coroamento.
Único edifício na região em estudo a apresentar planta em U e, em decorrência da declividade do terreno, aproveitamento para implantação de um porão sob a ala dos quartos.

vista posterior mostrando a implantação e divisão em blocos

A parte do corpo principal do edifício apresenta organização padrão, com sala e quarto de hospedes, em um primeiro momento, e uma grande varanda a seguir, para onde se abrem dois outros quartos. Dessa varanda abrem-se também as portas para a ala de serviços, onde se encontram cozinha, banheiro e depósito, e para a ala dos quartos. O fato de estarem os quartos no mesmo nível da parte principal da casa, permite a implantação de um porão sob os mesmos, o que já não acontece, com a ala de serviços, já que, até por uma questão de tradição, esta se encontra com um desnível de 65 cm em relação ao restante do edifício.

vista do edifício com as cercas de madeira

Apresenta vários modelos de janelas, sendo as da fachada principal em veneziana, as demais do corpo principal em madeira cega e as da ala dos quartos, em metal, tipo vitrô basculante.
À frente, separado da casa pelo tradicional jardim, de pequenas dimensões, encontra-se um amplo pasto que, em outras regiões é utilizado como curral, aqui, situado a certa distancia, à direita do edifício sede.

terça-feira, 9 de março de 2010

Vila Boa nos jornais XXIX

o jornal Nova Era, de 27 de novembro de 1919, publicou a seguinte matéria:

O MERCADO


O Exmo. Sr. Presidente do Estado tem ido diversas veses vizitar o nosso mercado, tomando assim conhecimento da maneira por que vão sendo executadas as medidas postas em prática por S. E.
Senti satisfação immensa quando há dias dias o vi entrar nesse pardieiro archaico que nos causa nojo e vergonha porque, embora S. E. tenha nascido e vivido aqui muitos annos, embora saiba o que é o edifício que nós chamamos mercado, julgo, e é muito provável, algum tempo de distancia da nossa capital o tenha feito esquecer o que é a hygiene e commodidade dessa instalação.
Agora fiquei sabendo que o Sr. Presidente gosta de conhecer as nossas necessidades, e que quanto a esse ponto elle as conhece de visu, o que é uma grande vantagem.
Já há tempos me vem martelando o espirito o dezejo de dizer umas tantas cousas sobre esse velho casarão e... francamente me via constrangido.
Não aprendi ainda a Ter o ar cathedratico, doutrinal e dogmatico que convém ao caso e me julgo ainda muito moço para dar conselhos a quem quer que seja, eu que sou avesso a recebe-los; mas, no terreno do interesse geral, quando se trata apenas de lembrar uma ideia, quando temos na administração quem se preocupa com o nosso progresso, devemos todos Ter ao menos franqueza de dizer o que pensamos já que nada podemos fazer.
A meu ver, o velho mercado deve ser desapropriado, abrindo-se alli uma rua em continuação á rua do Commercio, e, aproveitando-se o terreno do páteo, se construirá alli um ou mais edificios que não faltem em projectos (correios e telegraphos, palacio da justiça, etc.)
Para suprir a falta das ruinas demolidas seriam construidos pequenos mercados nas diversas entradas da cidade (Santa Barbara, Carioca, Moreira, João Francisco).
Parece-me que não seriam poucas nem pequenas as vantagens decorrentes dessa mudança; desde já vejo as seguintes:
-1. Embellezamento e arejamento da cidade com a rua do Commercio prolongada até a ponte do Dr. Neto, o que concorreria para melhor correspondência entre os habitantes da margem direita e esquerda do rio Vermelho.
-2. A descoberta do local para a construcção de diversos que agora todos perguntam para onde irão.
-3. Um melhor apparelhamento hygienico ao nosso abastecimento de viveres, ou antes algum apparelhamento pois que alli não existe nenhum.
-4. Maior facilidade para o publico que, em vez correr a um mercado central único iria ao mercado de Canastra, Santa Rita, da Aldeia ou do Registro.
-5. Melhor arrecadação das rendas que serão assim collectadas nas estradas forçadas, evitando o seu desvio.
-6. Com esta nova organização nunca mais seriam ouvidas queixas contra os commerciantes de generos que deixariam de estar nucleares.
Objectar-se-ia talvez o augmento de despezas, mas tal objecção seria nulla diante de uma pequena reforma que caberia muito bem em mercados pequenos; bastava que em cada um dos novos mercados existissem em vez de collectores e escrivães um collector e dous fiscaes.
Ora, acredito que só estas vantagens que agora me ocorrem, sem fallar naquellas que espiritos mais argutos possam descobrir, são sufficientes para nos encorajar na propaganda de similhante ideia.

segunda-feira, 8 de março de 2010

poesia

sinto
meu olho observador
buscando
formas, sons, ligações

sinto, meu olho,
observador
não vive de intenções.

observatório - Gustavo Neiva Coelho
ilustração: colagem - Fernando Costa Filho

domingo, 7 de março de 2010

patrimônio histórico XVIII

Casa Setecentista da cidade de Pilar de Goiás

O esgotamento das lavras de ouro na cidade de Pilar provocou, como na maioria dos aglomerados surgidos em função das descobertas auríferas, uma diminuição considerável no número de habitantes, levando-a quase à extinção. Desapareceram seus antigos sobrados, demoliram suas igrejas, quase nada restando da antiga opulência, da fartura e da riqueza antes existente.
Um dos edifícios remanescentes desse período, capaz de atestar em seus detalhes construtivos a imponência e o poder de seus antigos proprietários, é a chamada Casa Setecentista, situada na Rua da Cadeia. As rótulas de suas janelas são mantidas ainda hoje em um quase perfeito estado de conservação. Construída em adobe e pedra, essa edificação, apesar da conformação tradicional das residências do século XVIII em Goiás, com o corpo principal utilizando toda a largura do terreno e com um puxado destinado à área de serviços, dispõe, no entanto, de uma organização interna bastante diferenciada.

janelas de rótula, na casa setencista da cidade de Pilar de Goiás

Há na fachada duas portas e três janelas, sendo as portas com sobreverga de madeira trabalhada e as janelas cobertas com rótulas de treliça, de acabamento primoroso.
Os três cômodos que compõem a fachada são salas; duas delas apresentam forro em gamela, decorado com pinturas. Há inclusive em uma delas decoração também na parte interna das portas. Quartos e alcovas abrem-se para a varanda, que é a área da casa mais bem-iluminada e ventilada, em decorrência das três amplas janelas que dão para o quintal. A parte social liga-se com a varanda através de um pequeno vestíbulo, que, ao que parece, deve ter possuído o mesmo requinte de acabamento que as salas.

vista lateral das janelas de rótula

Na parte de serviços, um amplo depósito para mantimentos, dois cômodos servindo de cozinha e mais um quarto ligam-se com o restante da edificação através de um corredor, aberto também para o quintal, o que de certa forma facilita tanto a ventilação quanto a iluminação dessa parte da residência. O piso é feito em tabuado largo na parte principal da casa e em mezanela na parte de serviços, com uma estreita calçada de pedras, na parte do quintal, acompanhando as paredes do edifício.
Tombado, adquirido e restaurado pelo Patrimônio Histórico Nacional, esse edifício sedia hoje o Museu da Casa Setecentista, com acervo ligado à história da região. A proteção desse monumento é feita

na esfera federal:
Processo 427-T-50
Inscrição 414, Livro das Belas Artes, fls. 79
Inscrição 302, Livro Histórico, fls. 51
Com data de 20 de março de 1954

na esfera estadual:
Pela Lei 8.915, de 13 de outubro de 1980

quarta-feira, 3 de março de 2010

seminário sobre a ferrovia: arquitetura e história

No ano em que se comemorou os 150 anos de implantação da ferrovia no Brasil (2004), como resultado de um Seminário organizado na Escola de Arquitetura Edgar Graeff, da Universidade Católica de Goiás, foi publicado o livro Ferrovia: 150 anos de arquitetura e história (Trilhas Urbanas, 2004), reproduzindo a totalidade dos trabalhos aí apresentados.
Congregando arquitetos e historiadores, o Seminário apresentou trabalhos relacionados à ferrovia em Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso do Sul, envolvendo professores de quatro universidades. Participando do livro, estão os seguintes trabalhos, com os respectivos autores:

- A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil em Mato Grosso do Sul
- Os edifícios ferroviários da Noroeste do Brasil em Campo Grande, MS: documentação preliminar
Ângelo Marcos Vieira de Arruda

- Arquitetura de Ipameri: resgate de uma memória
Aroldo Márcio Ferreira

- A Estrada de Ferro Goiás: uma análise histórica
Barsanufo Gomide Borges

- Estação ferroviária de Araguari: um ícone de transformação no modus vivendis de um povo através do tempo
Cristina Baesse

- Arquitetura da ferrovia em Goiás
Gustavo Neiva Coelho

- A cidade e a ferrovia
Karla Guedes

- O processo de transformação da paisagem urbana em Goiás: das cidades coloniais do século XVIII às cidades ferroviárias do século XX
Massila Lopes Dias de Mendonça
- Estudo sobre o tempo: as estações da Luz e da Sorocabana
Nádia Mendes Moura

- Ferrovia no estado de São Paulo: um contexto histórico
Silvia Traldi

terça-feira, 2 de março de 2010

a arte de Selma Parreira


A artista Selma Parreira, de quem já falamos aqui, em função de seu trabalho “lençóis esquecidos no rio Vermelho”, é uma das mais conceituadas artistas goianas e uma das principais gravuristas do estado.
Nascida na cidade goiana de Buriti Alegre, Selma Parreira licenciou-se em Desenho e Plástica, em 1980, pela Universidade Federal de Goiás, onde leciona desde 1993, na Faculdade de Artes Visuais. Posteriormente especializou-se em gravura, na cidade de Guanajuato, no México.
Ao longo de sua carreira realizou exposições individuais e tem participado de coletivas em Goiânia, Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Paris, Tókio, entre outras localidades, apresentando trabalhos em acrílico sobre tela, desenhos, gravuras em metal e serigrafias. Alguns trabalhos seus podem ser encontrados em várias galerias de Goiânia, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.
Selma Parreira ao lado do gravurista e professor da FAV, ZéCésar, quando da exposição de seus trabalhos na galeria Beco das Artes.

galinha - gravura em metal com cor - 38 x 48

sem título - cáustica sobre papel artesanal - 50 x 35

sem título - acrílico sobre tela - 130 x 90