terça-feira, 20 de janeiro de 2015

ARQUITETURA EM GOIÁS I



A ARQUITETURA EM GOIÁS E SUAS PRIMEIRAS INFLUÊNCIAS

            A história da ocupação territorial no Brasil tem na arquitetura rural desenvolvida nos três primeiros séculos, um dos principais fatores de integração e desenvolvimento, servindo de base para a evolução de uma arquitetura urbana de características  próprias, além de apoiar tanto o estudo quanto o conhecimento de toda a organização não só espacial por que passou o colonizador português em território americano, como também em todos os aspectos da formação da nacionalidade brasileira.
A arquitetura de caráter rural implantada pelo colonizador no decorrer do período colonial apresenta dois momentos principais de desenvolvimento, representados, o primeiro no nordeste, pela casa grande dos engenhos de açúcar, da Capitania de Pernambuco, e o segundo, bem mais ao sul, mais precisamente na Capitania de São Vicente – atual estado de São Paulo – pela chamada “casa bandeirista”, que como aquela, se reveste de considerável importância histórica, ao representar um momento de grande relevância para o nosso desenvolvimento.
Casa do Pe. Inácio em Cotia-SP, exemplo de Casa Bandeirista.
Para uma maior compreensão do processo de ocupação do território goiano, no período representado pelos séculos XVIII e XIX, vai ser de real interesse, apenas o segundo modelo construtivo, já que é a arquitetura que melhor pode representar o ponto de partida utilizado pelos bandeirantes que, saindo de seu território de domínio, no interior paulista, vieram desbravar e ocupar as regiões produtoras de metais preciosos de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.
Elaborados inicialmente, com o uso da taipa-de-pilão, esses edifícios apresentam a organização espacial interna como um reflexo da forma como seu construtor e usuário se organiza, a partir de certas determinantes culturais que vão demonstrar a clara evolução de uma série de fenômenos que se processavam, estruturando a própria sociedade bandeirista.[1]
Tais determinantes vão marcar não só a arquitetura produzida em território paulista, como também aquela desenvolvida nas principais áreas sob sua influência, notadamente as regiões mineradoras descobertas a partir dos momentos finais do século XVII.

Forma de organização interna da Casa Bandeirista

A divisão do espaço interno dessas edificações em faixas e a existência de uma sala de convivência familiar demonstram bem a forma como as determinantes sócio-culturais aí se estabelecem, com a hierarquização do trabalho doméstico e a segregação da mulher em relação ao contato com visitantes e desconhecidos, principalmente aqueles do sexo masculino. A análise de tais edifícios deixa, no entanto, uma certa preocupação ao se constatar a ausência de espaço destinado às atividades de cozinha e serviços correlatos, o que não encontra similar em nenhum outro modelo.
Uma constante característica desse tipo de edifício rural, foi a escolha do

local onde se assentava a residência e o próprio modo de agenciá-la num determinado terreno. Em primeiro lugar, sempre se dava preferência a um ponto situado a meia encosta da paisagem (Saia, 1978, p. 67).

estando invariavelmente voltado para o norte e próximo a um curso d’água.
Temos, portanto que, ainda segundo Luis Saia (1978, p. 130-131), o modelo característico da arquitetura paulista dos primeiros séculos se apresenta instalada invariavelmente dentro de um

retângulo, com paredes de taipa-de-pilão, telhado de quatro águas e cobertura com telha de canal. Prefere sempre uma plataforma natural ou artificial, à meia encosta, nas proximidades de um riacho. A planta se desenvolve segundo um esquema preciso: uma faixa social, fronteira, contém a capela e o quarto de hóspedes e, no meio, o alpendre; atrás dessa faixa e em correspondência com as divisões dela, em torno de uma faixa central os quartos se dispõem lateralmente. Às vezes, no fundo, comparece um agenciamento de serviço, dando acesso ao pavimento superior.

Considera-se, no caso, como pavimento superior, o aproveitamento do pé-direito relativo aos quartos, entre o forro e o telhado, utilizado geralmente para o armazenamento de cereais.
É fácil perceber, ao se observar a planta do conjunto de edifícios remanescentes desse modelo, encontrado ainda hoje em território paulista, a grande semelhança em sua estrutura construtiva, demonstrando um número irrisório de diferenças, não aparecendo aí nada que seja realmente de grande consideração. De acordo com Lemos (1999, p. 21),

um fato é certo: por mais de duzentos e cinqüenta anos a planta e mesmo o partido arquitetônico da casa roceira colonial paulista da bacia do Tietê não tiveram alterações significativas, o que indica não ter havido mudanças no modo de morar, isto é, não terem ocorrido variações no programa de necessidades, o que indica, antes de tudo, uma estabilidade social em que as expectativas de ordem cultural mantiveram-se plenamente satisfeitas e imutáveis. Por duzentos e cinqüenta anos uma sociedade segregada serra acima usando a mesma casa. Mesma casa e mesma técnica construtiva.

Das determinantes culturais, a segregação familiar e o acolhimento cordial, das técnicas construtivas, a taipa-de-pilão, definindo a argila como material de fundamental importância.


A INTERIORIZAÇÃO DA ARQUITETURA

Com a descoberta do ouro, na região de Minas Gerais, nos anos finais do século XVII, houve uma verdadeira corrida de considerável número de aventureiros aos locais onde o metal era encontrado, podendo ser identificados mineradores vindos não só das mais diversas regiões da colônia, como também da metrópole. Ao passar por essa região, já iniciado o século XVIII, diz o padre Antonil (1982, p. 167) que a

cada ano, vêm nas frotas quantidade de portugueses e de estrangeiros, para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não tem do Brasil convento nem casa.

Esse afluxo populacional vai provocar o surgimento de uma infinidade de núcleos urbanos, muitos deles de duração efêmera, já que a maioria existiu enquanto o ouro era conquistado em quantidades compensadoras. Nesse momento, a vida na colônia, de feições puramente rurais, passa radicalmente a urbana, provocando alterações profundas na forma de organização e do relacionamento entre a população da colônia.
A implantação desses novos núcleos provocou a necessidade de se repensar o modelo, as técnicas e os materiais construtivos utilizados pelos paulistas, baseada principalmente em duas questões fundamentais: a primeira estaria relacionada ao fato de ser a experiência paulista com a construção quase que restrita à arquitetura rural, sendo o novo momento construtivo representado pela produção urbana, onde necessidades antes relevadas começam a se colocar como fundamentais na determinação de um novo programa. Outra questão de fundamental importância estaria relacionada aos custos e ao tempo empregado na construção, dentro dos moldes característicos da arquitetura paulista.
É então abandonada a taipa-de-pilão, como método construtivo básico, passando as novas edificações a serem elaboradas em decorrência de novas influências portuguesas, com a utilização agora, de uma estrutura autônoma de madeira[2], formando gaiolas, com as paredes, de adobe ou pau-a-pique servindo basicamente como elemento de vedação.
Também, nesse novo modelo, é clara a divisão do edifício em faixas – como ocorre na casa bandeirista – mesmo que a distribuição e uso dos ambientes ocorra de forma diferenciada. Percebe-se agora, o aparecimento de novos compartimentos e, compondo a faixa de serviços, o uso de espaço destinado à cozinha, além de um depósito para alimentos, mesmo que se apresentando de forma um tanto segregada, implantada, em um bloco anexo, que, definitivamente, não compõe o volume nobre da edificação.
Plantas das casas denominadas "meia morada" e "morada inteira"

Equivalente à sala íntima da casa bandeirista, tanto em localização quanto em uso, é possível perceber nessa nova casa urbana, de acordo com Lemos (1993, p. 103) a

grande sala familiar, na varanda, também chamada sala de jantar. A sala-praça, passagem obrigatória entre a rua e a cozinha ou o quintal. A sala onde desembocava o corredor vindo da rua, por onde transitava a criadagem, carregando os potes de água, a lenha dos fogões, os mantimentos, os animais domésticos. Sala onde a família ficava reunida, nas horas de lazer e nos momentos de trabalho caseiro. Sala íntima, antes de tudo, local de acesso às alcovas escuras e, portanto, local de passagem obrigatória dos urinóis pejados dos excretos noturnos.

Vale a pena observar que, no geral, a escassez de terreno urbano para ser ocupado por essa nova população urbana, contribui também para que os lotes sejam definidos com dimensões reduzidas em suas testadas. Isso vai, juntamente com uma série de determinações oficiais, promover uma certa padronização no número de aberturas, na altura dos edifícios e principalmente no alinhamento em relação às vias públicas. Tais questões, de acordo com Reis Filho (1976, p. 24)

revelam uma preocupação de caráter formal, cuja finalidade era, em grande parte, garantir para as vilas e cidades brasileiras uma aparência portuguesa. As repetições não ficavam porém somente nas fachadas. Pelo contrário, mostrando que os padrões oficiais apenas vinham completar uma tendência espontânea, as plantas, deixadas ao gosto dos proprietários, apresentavam sempre uma surpreendente monotonia.

Tais padronizações faziam com que, para um melhor aproveitamento dos espaços, as casas fossem construídas parede-meia, o que, por sua vez faz com que as aberturas para ventilação e iluminação fiquem restritas ao sentido longitudinal da edificação. A união das características impressas nesses modelos de habitação, a casa bandeirista e a casa urbana do período minerador vai determinar em grande parte a forma como se apresenta a arquitetura rural goiana. Isso é claro, a partir de uma visão ainda não aprofundada, considerando que para uma afirmação conclusiva, inúmeros são os aspectos que ainda serão necessários avaliar.
Grosso modo podemos perceber espaços que sob certa ótica representam adaptações a novas necessidades, em relação aos usos encontrados nos modelos anteriores.
No novo edifício, a sala pode facilmente ser entendida como uma adaptação do alpendre bandeirista, assim como o primeiro quarto como sendo o quarto de hóspedes daquela. A capela, terceiro elemento de composição da faixa fronteira da casa paulista é então eliminada do edifício, ficando agora no arraial, que, segundo Suzy de Mello (1985, p. 225) está invariavelmente muito próximo, o que, em hipótese alguma vem justificar a instalação de um espaço destinado a atividades religiosas dentro de uma propriedade rural que não se encontra mais tão distante do núcleo urbano.
A sala maior situada na faixa íntima apresenta o mesmo uso já encontrado no salão central da casa paulista, assim como na varanda da casa urbana, e a cozinha, apesar de já haver conquistado grau de importância, encontra-se ainda instalada, de forma até certo ponto segregada, em relação ao volume total do edifício, na parte posterior e com o piso em nível mais baixo que o daquele.
A terceira faixa, seguindo a organização bandeirista, acontece de forma diferente. Enquanto, no primeiro caso, está representada pelo conjunto de alpendre de serviço e depósitos, nos outros dois modelos – casa urbana e rural da região mineradora – engloba a cozinha e o depósito de mantimentos (a despensa) que posteriormente tem sua área dividida para dar lugar à instalação de um banheiro.



[1] Tanto os estudos de Luis Saia, quanto os de Carlos Lemos consideram que a forte estruturação sócio-cultural do habitante do planalto de Piratininga determinam de forma plena e incontestável, a organização da “casa bandeirista”, não só na rígida estruturação e distribuição interna, como também na seleção e uso de materiais e técnicas construtivas.
[2] Técnica conhecida pelo nome de FRONTAL, que em outras regiões da colônia estava vinculada quase que exclusivamente ao uso do pau-a-pique, mas que em Goiás, sempre esteve relacionado principalmente à utilização do adobe, como elemento de vedação.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

modelos brasileiros de igrejas com planta octogonal


forro apainelado octogonal da igreja de N. S. da Boa Morte
Com a colonização do Brasil levada a cabo pelos portugueses, a arquitetura implantada em nosso território se apresenta, em certos momentos, extremamente defasada, em relação ao que acontece em território português, desenvolvendo-se sempre com um certo atraso no que se refere aos modismos e mesmo aos períodos históricos por que passa a arquitetura portuguesa em sua porção européia.  Entretanto, em outros momentos apresentava um desenvolvimento que ocorria quase que simultaneamente ao que se estava desenvolvendo na metrópole. Exemplo desse paralelismo são os edifícios religiosos de planta octogonal construídos em território brasileiro que se desenvolvem praticamente ao mesmo tempo em que vão sendo desenvolvidos os edifícios religiosos de planta poligonal também em Portugal, se bem que ocorrendo no Brasil em número extremamente reduzido.
Segundo Pais da Silva (1993, p.137), mesmo que seja relativamente raro encontrar no Brasil, igrejas com o emprego de naves poligonais, é, no entanto freqüente o emprego de altares colocados junto ao arco cruzeiro, dispostos diagonalmente, quebrando assim a organização dos ângulos retos, o que faz com que um simples detalhe construtivo leve o observador à sensação visual de estar em um edifício de planta poligonal.
Tal situação, que é também encontrada em Portugal, talvez com a mesma freqüência, tem aqui, como exemplo, as igrejas da Conceição da Praia, na cidade de Salvador, na Bahia, e a igreja do convento de São Francisco, em Olinda, Pernambuco, e, apesar de darem a impressão de possuírem planta octogonal, essa figura se apresenta de tal forma irregular que mais representa um retângulo de ângulos cortados, não existindo relação de harmonia entre as medidas dos seus oito lados.
De acordo com os estudos de Paulo Santos (1981, p.26), a arquitetura desenvolvida em Lisboa é, no século XVIII, o elemento maior de influência e orientação, principalmente para a arquitetura religiosa em construção na cidade do Rio de Janeiro. Dois edifícios se destacam aí nesse período, por possuírem plantas não regular, que são as de Nossa Senhora da Glória, considerada por esse autor como sendo a jóia do século, construída em 1.730, e a de São Pedro dos Clérigos, de 1.733.
A igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro tem sua nave de traçado octogonal percebida tanto pelo interior quanto pelo exterior, sendo a única na região sul do país a apresentar tal característica, abandonando por completo as formas retangulares, inclusive na capela-mor e na sacristia, formando sua planta um oito, desenvolvido em linhas retas, pela união de dois octógonos irregulares, um na nave e outro englobando os restantes compartimentos da edificação.
Igreja de N. S. da Glória no Rio de Janeiro

São Pedro dos Clérigos, demolida em 1.924 em decorrência do alargamento da avenida Presidente Vargas, possuía seu corpo desenvolvido em linhas mais curvas, arredondadas, característica que se apresentava também em sua fachada.
Fachada da igreja de S. Pedro dos Clérigos do Rio de Janeiro

Construídas praticamente no mesmo período, têm essas duas igrejas seus projetos atribuídos ao Cel. José Cardoso Ramalho. Paulo Santos (1981, p.27), se não coloca dúvidas, pelo menos sugere reservas quanto à aceitação de tal informação. Segundo esse autor, na igreja da

Glória a originalidade da planta não apaga a rigidez dos traçados retilíneos, a contenção de propósitos e o peso da construção (espessura das paredes); na de São Pedro o traçado amolece nas formas polilobadas dos nichos laterais e do pórtico, e a maneira por que entre uns e outros se inserem as elaboradas torres (em que o círculo e o quadrado se entrecortam), revelam virtuosismo amaneirado, ou seja: projetista de temperamento diverso do da outra igreja.

            O exemplar encontrado no nordeste que melhor representa o modelo em estudo, a igreja de São Pedro dos Clérigos do Recife, tem data de construção praticamente do mesmo período das duas construídas no Rio de Janeiro, sendo todas elas contemporâneas à de São Pedro dos Clérigos da cidade portuguesa do Porto.
Esse edifício pernambucano apresenta a fachada dentro do esquema mais tradicional desse tipo de edificação, que é aquela com características maneiristas e duas torres laterais.
Igreja do Mosteiro da Luz em São Paulo

No estado de São Paulo, também duas edificações religiosas apresentam-se com esse tipo de planta, que são as igrejas de Nossa Senhora da Luz e a capela da Ordem Terceira de São Francisco. Essas duas construções têm suas histórias ligadas ao nome do religioso franciscano, de formação jesuíta, frei Antônio de Santana Galvão, responsável por uma série de obras realizadas nos dois edifícios, sendo que a mais importante foi a mudança do eixo principal da igreja da Ordem Terceira que, de acordo com Benedito Lima de Toledo (1986, p.132), ficou praticamente imperceptível, provavelmente por se tratar de um edifício cuja planta da nave se apresenta como um octógono, o que não aconteceria, se o desenho fosse baseado no retângulo, que era a característica geral dos edifícios religiosos da época.
As principais construções religiosas da região do ouro, em Minas Gerais, demonstraram em seu apuro, um minucioso trabalho de estudo e evolução proveniente dessas construções de planta octogonal.
Uma das mais interessantes, e provavelmente a mais simples de todas, é sem dúvida a de São José de Minas Novas, na região de Diamantina, que, de acordo com os estudos de Sylvio de Vasconcellos (1959, p.30), tem sua planta octogonal baseada em uma construção francesa dos Templários, do século XIII.
Igreja de São José de Minas Novas
A arquitetura desenvolvida pelo barroco mineiro, principalmente a de características religiosas, alcançou uma evolução não conseguida em nenhuma outra parte do território português, quer metropolitano, quer colonial. Exemplos maiores desses edifícios nessa região são as igrejas de São Pedro dos Clérigos, de Mariana, construída em 1.760, e a de Nossa Senhora do Rosário de Ouro Preto, provavelmente de 1.785 que, segundo Suzy de Mello, teriam sido inspiradas nas de Nossa Senhora da Glória, do Rio de Janeiro, e São Pedro dos Clérigos, da cidade do Porto, em Portugal.
Tal inspiração, principalmente no caso da igreja de Nossa Senhora da Glória, fica bem caracterizada pela proximidade das formas, em que o oito de linhas retas da planta da igreja carioca é substituído por outro de linhas curvas, nas igrejas mineiras, utilizando já, não a forma octogonal, mas a sua evolução para a elipse.
Entretanto, em oposição ao que diz Suzy de Mello, encontramos em Pais da Silva (1993, vol. II, p.125) uma opinião diferente, onde o autor não vê a planta de São Pedro dos Clérigos do Porto como base ou inspiração para nenhuma outra, o que não ocorre, segundo esse autor, com relação aos elementos decorativos aí encontrados.
De qualquer forma, sendo ou não inspiração para as edificações mineiras, o fato é que tal igreja apresenta, com um grau menor de apuro, a forma elíptica em sua nave (e somente aí), que como aquelas, é facilmente detectado pelo exterior.

domingo, 18 de janeiro de 2015

novo livro sobre arquitetura vilaboense

No final de 2014 foi lançado o livro Arquitetura religiosa setecentista em Vila Boa apresentando três textos sobre a arquitetura do período minerador, na antiga capital goiana. Resultado de vários anos de estudo e pesquisa sobre o assunto, esses textos foram, ao longo do tempo e em fases diferentes de desenvolvimento, apresentados em revistas especializadas ( Fragmentos de Cultura e Estudos, da PUC-GO e Locus, da UFJF) e em encontros, como o da ANPUH.
Igreja de Santa Bárbara sobre um pequeno outeiro na antiga saída para o arraial da Barra

O primeiro texto faz um panorama sobre os edifícios religiosos existentes na cidade, remanescentes do século XVIII, abordando formas, modelos e técnicas construtivas, além do histórico de cada um ao longo do tempo. Buscou-se também, nesse texto, apresentar as semelhanças com outras construções do mesmo período, como aquelas existentes em Minas Gerais e mesmo relacioná-las as fontes portuguesas que deram origem a seus modelos além das técnicas empregadas, trazidas pelo colonizador no decorrer do período colonial.
 Matriz de Sant'Anna, como se encontra atualmente no meio urbano da antiga Vila Boa.

O segundo texto trata especificamente da antiga matriz de Sant'Anna, sua história, a sequência de desabamentos e reconstruções, do século XVIII ao último ano do século XX, quando passou por nova intervenção que a colocou na situação em que se encontra atualmente. Apresenta ainda, esse texto, vasta documentação, com registros iconográficos relativos aos séculos XVIII, XIX e XX, com referências feitas por vários dos cronistas europeus que passaram pela cidade, além da correspondência realizada entre o bispo D. Emmanuel Gomes e o arquiteto Gastão Bahiana, por ocasião da elaboração de um projeto de recuperação da igreja realizado em 1929.
Detalhe do forro apainelado octogonal da Igreja de N. S. do Carmo.

E, finalizando, o terceiro texto faz um estudo da simbologia encontrada em duas dessas construções (igrejas do Carmo e da Boa Morte) que apresentam as naves no formato de um octógono. A construção desses dois edifícios utilizando esse modelo simbólico em suas naves, colocam a cidade no mesmo pé de igualdade com as brasileiras Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Minas Gerais e, mesmo com as portuguesas Porto e Braga (entre inúmeras outras) que, no mesmo período estavam edificando igrejas utilizando esse modelo em suas plantas.

Publicado pela Editora Vieira, o livro já está sendo utilizado como material de referência e consulta no curso de Arquitetura da PUC-GO.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Jorge Wilheim

Faleceu hoje, em São Paulo, o arquiteto Jorge Wilheim, aos 85 anos de idade. Apesar de haver nascido na cidade italiana de Trieste (1928), Wilheim é considerado um dos mais importantes nomes da arquitetura brasileira, sendo responsável, entre outros, pelos projetos de reurbanização do Vala de Anhangabaú e do Páteo do Colégio, na cidade de São Paulo. Entre seus trabalhos consta um plano urbanístico para a cidade de Goiânia.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

arquitetura brasileira I

REFLEXOS DA ARQUITETURA IBÉRICA DE ORIGEM ISLÂMICA
NA ARQUITETURA BRASILEIRA 

No decorrer do século XX, dois importantes trabalhos foram elaborados relacionando a arquitetura brasileira a uma matriz ibérica de origem muçulmana. O primeiro deles, intitulado Influências muçulmanas na arquitetura tradicional brasileira, de autoria do médico e historiador da arte José Marianno Filho, publicado nas primeiras décadas do século XX, buscava nessas referências as bases que justificariam sua preocupação e defesa em relação a uma arquitetura de caráter eminentemente brasileiro, que seria o Neocolonial.
É sabido de todos os que se interessam pelo estudo da história da arquitetura brasileira que José Marianno Filho e o arquiteto português radicado em São Paulo, Ricardo Severo, foram os maiores defensores e teóricos desse modelo arquitetônico que, por longo tempo foi relacionado ao ecletismo e que, só agora, iniciado o século XXI, começa a ter reconhecimento e estudos específicos, no sentido de melhor entendimento com direito a ocupar um espaço próprio na linha de desenvolvimento de nossa arquitetura. Foi também Marianno Filho incentivador de pesquisas, chegando mesmo a bancar viagens de alunos de arquitetura às cidades mineiras do período colonial para organizarem estudos e levantamentos visando uma maior compreensão das técnicas e do modelo tradicional como base para futuros projetos em que o Neocolonial fosse a principal referência, já que acreditava ele ser esse o modelo arquitetônico que melhor representava nossa cultura, baseada nas tradições que formaram e estruturaram o Brasil ao longo já de quatro séculos de existência.

Escola projetada por José Amaral Neddermeyer com caracterristica neocolonial

Ao longo do período em que esses estudos se desenvolveram, é histórico o desentendimento entre Marianno Filho e um de seus alunos mais promissores, Lúcio Costa, quando este, abandonando o barco do Neocolonial, vinculou-se ao Modernismo corbusiano, naquele momento o principal inimigo a ser combatido pelo grupo liderado por Marianno, o que se constituiu em um duro golpe no andamento dos estudos e pesquisas organizados pelos neocolonialistas. Convém observar que, inicialmente, as baterias dos defensores do Neocolonial estavam todas voltadas contra a arquitetura de caráter eclético e academicista de origem européia que, segundo Marianno Filho e seus seguidores, representava uma interferência pouco construtiva ao bom entendimento de nossas tradições e fazeres arquitetônicos.
O segundo trabalho, de autoria do arquiteto Eduardo Kneese de Mello, intitulado a herança mourisca da arquitetura brasileira, já iniciada a segunda metade do século, trazia um outro enfoque ao assunto, objetivando, nesse momento, mostrar em que medida a influência da arquitetura ibérica de origem islâmica contribuiu para o desenvolvimento de uma arquitetura de caráter modernista, eminentemente brasileira.

projeto de Lúcio Costa utilizando balcão e elemento vazado, influência da arquitetura mourisca

Kneese de Mello, que se gabava de possuir o registro de n° 1 do IAB-SP – Instituto dos Arquitetos do Brasil, seção São Paulo – foi um dos grandes defensores da arquitetura moderna, tendo ao longo de sua vida publicado livros, artigos e inúmeros estudos, além de proferido palestras e conferências sobre a arquitetura brasileira, em especial aquela produzida no século XX.

Assim, dois estudos sobre o mesmo assunto são apresentados com objetivos de interesses opostos, ou seja, cada um pretendendo defender seu ponto de vista – o Neocolonial de José Marianno Filho e o Modernismo de Eduardo Kneese de Mello – utilizando os elementos mouriscos como base e referência para suas teorias: a influência islâmica na arquitetura ibérica como base para o desenvolvimento (ou retomada) de uma arquitetura tradicional por um lado, e por outro, essas mesmas influências como elementos fundamentais do desenvolvimento de uma arquitetura nova, modernista.  

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Construções religiosas em Vila Boa de Goyaz II

IGREJA DE NOSSA SENHORA DA BOA MORTE

 



Construída inicialmente no largo do Chafariz, ou da Boa Morte, pela Irmandade dos Homens Pardos, a capela de Nossa Senhora da Boa Morte já aparecia em desenhos datados de 1751, ao lado da Casa de Câmara e Cadeia, um edifício de um único pavimento. Apesar da existência nesse mesmo largo, de edifícios e monumentos importantes, como a Casa de Câmara e Cadeia, o Quartel dos Dragões e o Pelourinho, foi pelo nome da capela que ficou conhecido o largo, durante muito tempo, assim como o chafariz, construído um ano antes da transferência da capela para o largo do Palácio.

Em 1762, por iniciativa do capitão de cavalaria Antônio da Silva Pereira, teve início a construção da capela de Santo Antônio, que utilizava os alicerces de uma das casas pertencentes a Bartolomeu Bueno da Silva. Tal capela deveria atender aos militares em suas necessidades religiosas, e contou, para a construção, segundo o padre Des Genettes (1980), com uma provisão datada de 6 de setembro daquele mesmo ano.
Entretanto, a proibição quanto à existência de templos pertencentes a militares fez com que os mesmos doassem à Irmandade dos Homens Pardos, a construção inacabada de sua igreja, que foi então por eles concluída e ocupada em 1779. A partir de então, passou a Irmandade dos Militares a se reunir na Matriz de Sant’Anna, onde teve um altar dedicado ao seu santo padroeiro.
Único edifício religioso da região de Vila Boa a apresentar na fachada elementos característicos da arquitetura barroca, a igreja de Nossa Senhora da Boa Morte apresenta ainda, em seu interior, a nave na forma de um octógono retangular. Possui dois altares laterais, sendo um dedicado a Nossa Senhora das Dores e a outra a Nossa Senhora do Parto, além de corredores laterais à capela-mor ligando-a à sacristia, situada em sua parte posterior.
Em decorrência da irregularidade do terreno e da forma como o edifício foi implantado criaram-se dois jardins, sendo um deles dotado de um pequeno poço, além de abrigar a torre sineira, uma estrutura de madeira lavrada, encimada por uma cobertura de telha canal de quatro águas, com inclinação bastante acentuada, com forma piramidal.

Essa igreja possuiu, segundo Cunha Mattos (1984), pintura a fresco, da qual não existe hoje nenhum registro, e serviu como Catedral de 1874, com o desabamento da igreja Matriz, até 1967, quando essa função retornou para a igreja de Sant’Anna.
De acordo com Suzy de Mello, em determinado momento da evolução da arquitetura religiosa mineira, a altura da nave era ampliada, dando espaço à implantação de um segundo pavimento com a finalidade de atender às necessidades da mesa diretora da Irmandade. Surgia assim, de acordo com essa autora (MELLO, 1985, p. 139) sobre a sacristia, e com a mesma área desta, um salão, denominado consistório, destinado a abrigar a Irmandade em suas reuniões.
Em Vila Boa, a única igreja a apresentar tal modelo evolutivo é a igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, observando-se aqui que, o que em Minas Gerais se apresenta como evolução e passa a se incorporar às novas construções, em Goiás aparece de maneira esparsa e geralmente sem atender à mesma seqüência desenvolvida nas Gerais, e como geralmente a sacristia estava situada entre dois corredores laterais que lhe serviam de acesso, também esse espaço era aproveitado em um segundo pavimento para a instalação das tribunas, geralmente abertas para dentro da capela-mor, de onde as figuras ilustres assistiam às celebrações, resguardadas do contato com o geral da população.
Na igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, as tribunas apresentam-se situadas sobre os altares laterais, com abertura em verga de arco abatido e parapeito de balaústre torneado dando para a nave, sendo o seu acesso feito pela sala do consistório.

Duas outras igrejas em Vila Boa apresentam tribunas na parede lateral, todas abertas para a nave, o que possibilita a visão da capela-mor, permitindo às pessoas que ali se encontram, assistirem aos ofícios, o que não acontece na igreja da Boa Morte, onde, pelo fato de ser a nave de formato octogonal, e as janelas das tribunas (uma de cada lado) situadas nas faces que definem o octógono, a visão do altar-mor fica obstruída em decorrência do ângulo formado com a parede do arco cruzeiro. Sua localização demonstra mais uma preocupação estética do que propriamente uma necessidade de possuir tribunas, já que compõem um conjunto singular com duas paredes com janelas falsas, duas aberturas laterais no coro e duas grandes envasaduras que se defrontam, que são o arco cruzeiro e o arco central do coro.


Essa igreja é, por suas proporções e pelo esmero dos detalhes de sua fachada, o edifício que mais se impõe no conjunto arquitetônico da cidade de Goiás.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A arte de Elder Rocha Lima

CERRADOS, VEREDAS E GERAIS

               (PINTURA, DESENHOS E GRAVURAS)
  

              
Após receber o título de Doutor Honoris Causa, na PUC-GO, Elder Rocha Lima pensou em fazer uma exposição que fosse quase uma mostra retrospectiva de seu trabalho. No entanto, questões ocorridas no desenvolvimento do processo acabaram por transformar a mostra em uma de suas melhores exposições, mostrando o fôlego, a expressão e a criatividade com que o artista desenvolve o seu trabalho. Também para a galeria Beco das Artes, onde a exposição aconteceu, foi  um momento de real importância, com a apresentação dos trabalhos de um dos mais expressivos artistas goianos.
As peças apresentados nessa mostra, ainda que perdendo a caracterização como uma intenção de retrospectiva tem a função de trazer ao conhecimento daqueles que se interessam por arte em Goiás, a obra de um dos principais artistas goianos cuja produção se concentra na segunda metade do século XX e início do XXI.
De acordo com o próprio artista, representam esses trabalhos “mais um exemplo de temas prediletos e algumas técnicas preferidas que cercam meu trabalho há mais de 40 anos, representando variados tempos individuas de produção”, estando aí presentes as pinturas em tela, as gravuras e alguns desenhos em bico-de-pena, com temática predominantemente “vinculada à paisagens urbanas de nossas cidades goianas do período colonial e vistas do cerrado, campos gerais, veredas e matas de galeria. As cidades representadas são Cidade de Goiás, Pirenópolis e Corumbá de Goiás”.


Nessas paisagens, tanto as urbanas quanto as rurais, o que o artista pretende, sobretudo, é imprimir sua total empatia com o cenário paisagístico goiano, sem marcar nenhuma intenção direta ou indireta de pronunciamento ou de bandeira de defesa ecológica.
O que ele busca com a seleção dos trabalhos aqui expostos é o seu enquadramento no panorama cultural do planalto central, especificamente daquilo que se vem conceituando denominar como cultura cerratense e/ou cultura goiana, entendendo de maneira especial o que se pretende como regional é o melhor caminho que conduz a um universo cultural de maior amplitude.
Constitui-se essa mostra de 13 telas, pinturas trabalhadas com a técnica de têmpera vinílica sobre tela, com as dimensões de 70 x 90cm. As tintas utilizadas são preparadas pelo próprio artista, em seu ateliê, e enquadram-se na classificação genérica de tintas acrílicas.
Quanto ao processo de trabalho, é perceptível a preferência de Elder Rocha Lima pelo gestualismo, onde se apresenta uma expressiva liberdade no ato de pincelar, sem qualquer controle ou pretensão disciplinadora. A soma de gestos é que formata a composição, conferindo à tela ou ao desenho esse aspecto aparentemente caótico, principalmente no que se relaciona aos detalhes, tendo, no entanto que se admitir a existência de efeitos ocasionais de forte expressividade.


Esse aparente caos, de acordo com Elder Rocha Lima, “aproxima-se do cerrado no seu aspecto fractal, ao invés de uma fisionomia próxima a geometria euclidiana. Essas observações não pretendem ‘explicar’ minhas condutas pictóricas, mas sim esclarecer alguns aspectos da minha fatura plástica”.
E é a recente e intensa convivência, com a cidade de Pirenópolis que, provavelmente, determinou o eixo condutor dessa exposição, onde a maioria das telas representa paisagens extraídas de andanças pela Serra dos Pireneus, onde as largas visadas, os amplos horizontes comparecem dentro de todo um conceito artístico e de vivência já experimentados por Elder Rocha Lima.
Embora não negue a influência de certos artistas ditos acadêmicos, a forma como os trabalhos de Elder são desenvolvidos, demonstra uma clara concepção espacial, totalmente livre, indo da perspectiva renascentista à perspectiva paralela dos artistas orientais, ambas utilizadas por ele como fonte inesgotável de pesquisa. Momento em que essa perspectiva paralela pode ser observada com maior intensidade é na produção de naturezas-mortas, em que o artista usa de total liberdade, conseguindo as visadas que tão bem caracterizam seu trabalho.
Utilizando o papel como suporte, encontramos nesta mostra, dez trabalhos onde foram utilizadas as técnicas gráficas de desenho a nanquim (bico-de-pena), monotipia (cópia única), serigravura, fusain e aquarela. Alguns desses trabalhos são declaradamente figurativos como os desenhos de figura humana e as cenas urbanas de caráter regional; outros apresentam intenção plástica mais livre, chegando mesmo ao nível da abstração.



Os trabalhos apresentado nessa exposição são, em sua maioria de cunho figurativo, com certas características intencionalmente documentais, trabalhados, no entanto, com liberdade estilística e, em certos casos, conscientemente contida e limitada por esse determinante.
Para esse mês de dezembro de 2013, Elder Rocha Lima já prepara outra exposição na galeria Beco das Artes, com o título "Experimentações sobre Papel", com desenhos e pinturas e técnica mista , tudo sobre papel, uma das grandes paixões do artista.