terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

poesia outra

quando desço
do alto dos meus sonhos
e toco de leve
o chão
da minha existência
é que percebo
a distancia que guardam os olhos
entre o vivido
y o esperado

entre o previsto
y o apenas pensado.

vertigem – Gustavo Neiva Coelho
ilustração: D. Quixote e Sancho Pança - Roos

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

patrimônio histórico XVI

Palácio Conde dos Arcos

Tal como o Quartel do XX, o Palácio Conde dos Arcos, na cidade de Goiás, não foi um edifício construído a partir de um projeto ou plano preestabelecido. Segundo documentos do arquivo do Museu das Bandeiras, anotados pelo IPHAN, o palácio seria uma adaptação de quatro residências de propriedade de Domingos Lopes Fogaça, adquiridas com o propósito de abrigar os governadores da Capitania.

o palácio Conde dos Arcos em desenho de 1782

Passou ainda, ao longo dos séculos, por uma série de reformas, adaptações e acréscimos que o descaracterizaram por completo, em relação à sua forma primitiva. Essas reformas visavam adequar o edifício ao uso que se pretendia, com um grande número de compartimentos, divididos, de um lado, em ala administrativa e, de outro, em residência oficial.
Das alterações ocorridas, as que mais interferiram nas características originais da edificação foram aquelas procedidas em sua fachada, com a substituição do beiral por platibanda, com o acréscimo de um frontão, com cunhais apilarados e com um alargamento na porta principal que, além do mais, recebeu um arco pleno em sua verga, elemento esse que não encontra similar em nenhum outro edifício da cidade.

a fonte existente em um dos pátios do palácio

Em função das várias reformas ocorridas, constata-se, no edifício, o uso de técnicas e materiais construtivos que vão desde a taipa-de-pilão até o tijolo cozido, com proporções que denunciam uma fabricação não muito antiga. No piso, é possível encontrar desde o tabuado corrido até a mezanela e mesmo a laje de pedra, elemento de uso comum em toda a região. O forro de madeira em saia-e-camisa também é uma constante em todos os seus compartimentos, como forma de representar uma decoração mais elaborada.

o palácio visto do patio da fonte, com a catedral ao fundo

Em sua parte posterior, onde ocorriam as festas e os saraus, há um pátio muito bem trabalhado, escalonado em vários níveis, com piso de mezanela e uma fonte em um dos lados.
Esse edifício serviu como residência dos governadores até 1937, quando a capital foi transferida para Goiânia, passando, a partir daí, a sediar a administração municipal.
Atualmente abriga o Museu Palácio Conde dos Arcos e, no mês de julho, por ocasião do aniversário da cidade, volta a servir como sede provisória do governo estadual, procedimento que teve início em 1961, na administração do governador Mauro Borges Teixeira. A proteção desse monumento é feita

na esfera federal:
através do processo 345-T-42, com
inscrição 283, no Livro Histórico, às folhas 48,
com data de 3 de maio de 1951;
inscrição 72, no Livro das Belas Artes, às folhas 77
com data de 3 de maio de 1951;

na esfera estadual:
é protegido pela Lei nº 8.915, de 13 de outubro de 1980.

arquitetura ferroviária como patrimônio

O livro Patrimônio ferroviário tombado em Goiás (Trilhas Urbanas, 2002) foi a primeira publicação a documentar a arquitetura ferroviária goiana dentro dos conceitos relacionados ao patrimônio histórico. São onze monumentos protegidos por legislação própria estadual ou dos municípios em que estão inseridos, que dão início a uma preocupação maior quanto ao futuro desse patrimônio, em alguns casos literalmente destruído, em outros abandonado e, ainda em outros, apropriados por terceiros, sem a menor preocupação com sua originalidade ou especificação estética.
Encontrados, todos eles, na região sudeste do estado, apresentam uma importância singular no desenvolvimento dessa região, assim como no estabelecimento e na história de várias cidades, que tiveram seu início e desenvolvimento em torno da estação ferroviária.
Publicado no bojo de um amplo movimento que incorporou seminários, artigos em revistas e jornais, além da documentação histórica da importância da ferrovia para o estado, no decorrer da primeira metade do século XX, o livro foi elaborado na esperança de que fosse o tombamento ampliado aos restantes 16 monumentos ainda não protegidos, o que, após oito anos ainda não aconteceu.
Apresentando textos, fotos, desenhos e plantas arquitetônicas, o livro inicia o debate sobre a preservação do patrimônio ferroviário goiano. Vamos ver quanto tempo mais será preciso esperar para que algo seja feito.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Tilike Coelho e a Bela Dupla

Tilike Coelho, cantor, ator e professor de teatro na cidade do Porto, em Portugal, é goiano de Catalão. Aqui ele aparece em uma apresentação da Bela Dupla, grupo formado com o músico português Francisco Moura Relvas. Relvas ao violão e Tilike tocando udhu (instrumento de percussão de origem árabe), interpretando a Flauta Mágica de Mozart.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

igreja de N. S. do Rosário

No decorrer das primeiras décadas do século XX, uma intensa correspondência se deu, em função da solicitação feita pelos padres Dominicanos da cidade de Goiás, no sentido de se demolir a antiga igreja de N. S. do Rosário para, em seu ligar, ser construída uma outra, de linhas mais modernas. um desses documentos, definitivo quanto à solicitação da Ordem, assinado por D. Prudêncio, bispo de Goyaz, apresenta o seguinte teor:


Ao Rev. Sr. Frei Sebastião Tomaz
DD. Vigário Provincial dos Dominicanos no Brasil


Somente hoje, porque há pouco é que acabamos de receber resposta da Exma. Nunciatura apostólica á consulta que lhe fizemos sobre o assumpto destas lettras em 9 de janeiro findo, conforme avisamos a V. R. em data de 8 do mesmo mez, - vimos responder o seu officio de 14 de dezembro do anno passado, pelo qual V. R. referindo-se a outro officio que nos dirigio a 21 de abril de 1914 e nossa resposta ao mesmo datada de 19 de julho do dito anno sobre a cessão, por parte da Diocese de Goyaz, do domínio radical da Egreja de N. S. do Rosário desta Capital á Ordem Dominicana a quem esse templo já havia sido concedido em domínio útil in perpetuum, em vista das razões que allegava, = pede-nos, - em virtude de já ser a Ordem proprietária desde 1° de maio de 1903 do terreno em que esta este situado, e nas condições da proposta de compra feita á Mitra de Goyaz em 26 de novembro de 1902, conforme se deprehende das copias dos respectivos documentos etc, - que declaramos: “1° Que os terrenos em que se acham assentados o Convento e a Egreja do Rosário da Capital Goyana, pertencem á Ordem de S. Domingos; 2° Que essa Egreja uma vez reconstruída será propriedade total e exclusiva da Ordem; 3° Que a Ordem pode utilizar-se para a referida construção do material ainda aproveitável da Egreja actual.” E conclue V. R. dizendo que a Ordem saberá ser reconhecida, e que o donativo a ser offertado a nos para as necessidades da Diocese, não será inferior ao quantum da divida desta para com o Convento de Goyaz.
Esclarecidos como agora ficaram os factos e as respectivas conseqüências, tendo nos submetido á apreciação do Exmo. E Revmo. Sr. Núncio Apostólico actual, como acima ficou dito, todos os documentos que se referem á questão, que alias devia constar do archivo da Nunciatura com a forma a nos apresentada em 1914, e tendo, enfim, do mesmo Exmo. Sr. Núncio a sollicitada opinião escripta e firmada de próprio punho em 27 de janeiro p. findo: - Havemos por bem fazer as declarações pedidas como se segue: “1° Affirmative, porque a Ordem o comprou da Mitra, ao 2° affirmative, uma vez edificada nova Egreja; ao 3° Affirmative, de accordo com a seguinte decisão da Nunciatura: Per gli arrochi sacri e altri oggetti del Culto appartenenti alla Chiesa penso dobano dare allá Diocesi um giusto comprenso, pois julgamos que, alem do material da Egreja a que se refere V. R. ainda havia na mesma certas alfaias ao tempo da respectiva entrega em uso fructo.
Tendo assim respondido ao seu officio em todas as suas partes, aproveitamos a opportunidade para avisar-lhe que havemos já saldado a divida que esta Mitra tinha para com o Convento de Goyaz logo ao chegarmos ao que da ultima viagem, ao mesmo tempo que fazemos votos a N. Senhora pela breve construcção da nova Egreja de N. S. do Rosário nesta Capital pois, na phrase expressiva de seu illustre antecessor, esse venerando Templo “foi no passado e pode ser no futuro (e esta sendo no presente, acrescentamos nos) um Sanctuario de grandes vantagens espirituaes para os fieis goyanos, “- ao que realmente satisfará como bem disse V. R. “aos desejos do povo goyano e, sem duvida, aos nossos próprios anhelos”, alimentados desde que aqui chegamos, e nos subscrevemos,
De V. R.
adm°. E servo
+ Prudêncio, Bispo de Goyaz
Goyaz, 11 de fevereiro de 1919
Registro e transcrição nos livros competentes da Câmara Eclesiástica
Padre Pitaluga, decreto.

Essa era a igreja de N. S. do Rosário, de cuja demolição trata o documento apresentado acima. O desenho, datado de 1904, mostra ainda o edifício ocupado como residência pelos padres Dominicanos, com fachada e volumetria diferentes do que pode ser visto hoje. Sobre a nova igreja de N. S. do Rosário, voltaremos a falar.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

arquitetura rural de Goiás I

Com o fim da economia mineradora, na segunda metade do século XVIII, a população que em Goiás vivia dessa forma de produção, opta pela busca de formas diferenciadas de economia, dando preferência àquelas que exigiam um estabelecimento rural, de forma isolada, iniciando na região, uma economia basicamente de subsistência referenciada na agropecuária. Grande número de cidades do período minerador, desapareceu, o que não impediu o desenvolvimento das que permaneceram, e mesmo o surgimento de outras, em regiões mais férteis e próximas às propriedades produtivas surgidas já iniciado o século XIX.

fazenda Cedro I, na região do rio Corumbá, no município de Luziânia

Para Goiás, o século XIX representou o surgimento de um considerável número de novas cidades e a ocupação de imensas áreas agriculturáveis nas mais diversas regiões do estado, investindo a região norte principalmente na pecuária e a região sul, na agricultura. Surgem, nesse período, especificamente na região mais ao sul do estado, cidades como Ipameri, Rio Verde, Jataí e Bela Vista, entre outras. Pirenópolis, Luziânia e Silvânia, implantadas ainda no período minerador, tem o objetivo básico de sua economia desviado para a agricultura e conseguem superar a aparente decadência e despovoamento provocados pelo fim da mineração, promovendo uma nova forma de desenvolvimento. Catalão, surgida no século XVIII como ponto de apoio e fornecimento de produto às bandeiras, permanece com o mesmo tipo de economia, passando por um processo de grande desenvolvimento na segunda metade do século XIX e, com a chegada dos trilhos da EFG, nos anos iniciais do século XX, passa a ser o principal centro econômico da região.
E são, principalmente, as fazendas de criação de gado e produção agrícola que vão fazer o desenvolvimento e progresso dessas cidades.

fazenda Anta Gorda, na região do rio São Marcos, próximo a Catalão

Começa a se desenvolver também um novo tipo de arquitetura, tanto nas cidades quanto no meio rural, incorporando as técnicas e os materiais utilizados no século anterior, de conhecimento vernacular, associados a um novo programa ligado à nova economia e às novas necessidades da população. Permanecem do período anterior, o uso da estrutura de madeira, o adobe, o pau-a-pique, a cobertura com telha canal, a caiação das paredes e, como principal alteração, a mudança na implantação do edifício em relação ao terreno, o traçado e largura das vias, além da forma como o edifício religioso estará relacionada com a praça e o meio urbano.
Os terrenos, mais generosos, permitem a implantação dos edifícios de forma diferente daquela conhecida no período anterior. Já não se encontram mais as casas grudadas umas às outras ao longo das ruas, mas soltas em meio dos lotes, favorecendo tanto a iluminação quanto a ventilação em todos os cômodos, eliminando assim as alcovas escuras e abafadas das casas mineradoras. Aumenta o número de cômodos, em obediência ao novo programa de necessidades, amplia-se o número de quartos, surgem cômodos destinados unicamente ao armazenamento dos produtos vindos das fazendas, chegando, em alguns casos, como na casa do Senador Canedo, na cidade de Bela Vista, a ser incorporado ao programa um “quarto dos doces”.

fazenda Cedro II, da região do rio Corumbá, próximo à fazenda Cedro I

No meio rural, a casa adota alguns dos elementos da residência urbana, incorporando outros desaparecidos com a urbanização da população, no período anterior. O acesso deixa de acontecer através de um corredor, quer central, quer lateral, utilizado na casa da cidade e passa a acontecer diretamente sobre uma sala, chamada “sala de visitas”. Aberto para essa sala, aparece, com a designação de “quarto da sala”, o antigo quarto de hóspedes da Casa Bandeirista. Sua localização, na parte fronteira da casa, isolado do restante da habitação, cria um certo distanciamento e respeito em relação aos moradores e às atividades do seu dia-a-dia. De acordo com Carlos Lemos (1999, p. 31),

Houve em toda casa roceira colonial a presença obrigatória de alojamento para hóspedes importantes no corpo da moradia, mas isolados das dependências familiares. Isolamento que tornou inevitável a definição de uma área de receber pessoas estranhas,

além do fato de estar o quarto de arreios, junto ao paiol, sempre disponível para uso como quarto de hóspedes para visitantes não tão importantes. Afirma ainda esse autor (1999, p.30) que era a hospitalidade um fator que ia além da simples cordialidade, era durante os primeiros séculos e até mesmo em princípios do século XX, uma obrigação social relacionada à própria sobrevivência da comunidade. Teria sido uma atitude normal em todo o meio rural no decorrer do século XIX.
Permanece a varanda, para o desenvolvimento das mesmas atividades já encontradas nas residências urbanas do século XVIII e mesmo das novas cidades implantadas no decorrer do século XIX. E é para essa varanda que se abrem, no novo meio rural, os quartos destinados aos seus moradores.
Em um plano mais baixo, aproveitando o declive natural do terreno, pode ser encontrada a área destinada ao serviço pesado: cozinha, despensa, depósitos, e, do lado de fora da casa, o forno, o monjolo, paiol e a bica d’água.
É interessante observar que, no geral, a casa rural se encontra sempre em uma meia encosta, com a fachada principal voltada para o aclive, aproveitando o declive para a instalação do setor de serviços, para onde é desviado, por força de gravidade, um rego d’água, de algum manancial de pequeno porte situado nas proximidades. Convém observar que a presença de um córrego é exigência fundamental e determinante na escolha do local para construção da casa. Essa água desviada e trazida para junto do novo edifício , tem a função de abastecer os serviços internos da residência, do engenho e do monjolo, além de fornecer água para os locais de criação e engorda de pequenos animais, como porcos e galinhas.

fazenda Paredão, às margens do rio São Marcos

Durante praticamente todo o século XIX e cerca de três quartas partes do século XX, a arquitetura rural desenvolvida em Goiás, apresentou uma certa hierarquização no que se refere à construção e organização dos edifícios residenciais, existindo os edifícios sede, com um grau maior de elaboração, acabamento e número de compartimentos e as casas dos empregados, mais simples, com número menor de compartimentos e acabamento extremamente rústico. Nas últimas décadas do século XX, esse último modelo deixou de existir, em decorrência das novas leis sobre o trabalho rural, que, de certa forma, fizeram com que fosse reduzido o número de funcionários por propriedade, além de demolidas as construções que passaram a se apresentar como desnecessárias.

fazenda Olaria, junto ao rio Corumbá

Também nas décadas finais do século XX, grande número de edificações representativas dessa arquitetura rural, foi demolido, em alguns casos para dar espaço a novos investimentos, em outros para dar lugar a novas edificações com materiais e técnicas construtivas mais contemporâneas.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

duas fotos antigas de Catalão


De Catalão, são as duas fotos aqui apresentadas, de autoria não identificada, sendo uma da década de 1960 e a outra de período anterior, provavelmente do final da década de 1950.

A primeira foto, mais antiga, mostra parte da principal praça da cidade, tendo à esquerda, o sobrado Nasr Fayad. A Av. 20 de Agosto, com o canteiro central arborizado, e o prédio comercial d’A Construtora.


A segunda foto, mais recente, com o fotógrafo posicionado no telhado de uma edificação, provavelmente do Colégio Anchieta, mostra a Av. 20 de agosto, pavimentada em blocos de concreto, sem a arborização do canteiro, vista na imagem anterior, tendo em seu lugar uma torre de relógio em estilo art déco. É possível ver ainda, o edifício Fayad (com telhado triangular) e parte do Cine Real (construção branca junto à grande árvore da praça).