quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

arquitetura rural de Goiás I

Com o fim da economia mineradora, na segunda metade do século XVIII, a população que em Goiás vivia dessa forma de produção, opta pela busca de formas diferenciadas de economia, dando preferência àquelas que exigiam um estabelecimento rural, de forma isolada, iniciando na região, uma economia basicamente de subsistência referenciada na agropecuária. Grande número de cidades do período minerador, desapareceu, o que não impediu o desenvolvimento das que permaneceram, e mesmo o surgimento de outras, em regiões mais férteis e próximas às propriedades produtivas surgidas já iniciado o século XIX.

fazenda Cedro I, na região do rio Corumbá, no município de Luziânia

Para Goiás, o século XIX representou o surgimento de um considerável número de novas cidades e a ocupação de imensas áreas agriculturáveis nas mais diversas regiões do estado, investindo a região norte principalmente na pecuária e a região sul, na agricultura. Surgem, nesse período, especificamente na região mais ao sul do estado, cidades como Ipameri, Rio Verde, Jataí e Bela Vista, entre outras. Pirenópolis, Luziânia e Silvânia, implantadas ainda no período minerador, tem o objetivo básico de sua economia desviado para a agricultura e conseguem superar a aparente decadência e despovoamento provocados pelo fim da mineração, promovendo uma nova forma de desenvolvimento. Catalão, surgida no século XVIII como ponto de apoio e fornecimento de produto às bandeiras, permanece com o mesmo tipo de economia, passando por um processo de grande desenvolvimento na segunda metade do século XIX e, com a chegada dos trilhos da EFG, nos anos iniciais do século XX, passa a ser o principal centro econômico da região.
E são, principalmente, as fazendas de criação de gado e produção agrícola que vão fazer o desenvolvimento e progresso dessas cidades.

fazenda Anta Gorda, na região do rio São Marcos, próximo a Catalão

Começa a se desenvolver também um novo tipo de arquitetura, tanto nas cidades quanto no meio rural, incorporando as técnicas e os materiais utilizados no século anterior, de conhecimento vernacular, associados a um novo programa ligado à nova economia e às novas necessidades da população. Permanecem do período anterior, o uso da estrutura de madeira, o adobe, o pau-a-pique, a cobertura com telha canal, a caiação das paredes e, como principal alteração, a mudança na implantação do edifício em relação ao terreno, o traçado e largura das vias, além da forma como o edifício religioso estará relacionada com a praça e o meio urbano.
Os terrenos, mais generosos, permitem a implantação dos edifícios de forma diferente daquela conhecida no período anterior. Já não se encontram mais as casas grudadas umas às outras ao longo das ruas, mas soltas em meio dos lotes, favorecendo tanto a iluminação quanto a ventilação em todos os cômodos, eliminando assim as alcovas escuras e abafadas das casas mineradoras. Aumenta o número de cômodos, em obediência ao novo programa de necessidades, amplia-se o número de quartos, surgem cômodos destinados unicamente ao armazenamento dos produtos vindos das fazendas, chegando, em alguns casos, como na casa do Senador Canedo, na cidade de Bela Vista, a ser incorporado ao programa um “quarto dos doces”.

fazenda Cedro II, da região do rio Corumbá, próximo à fazenda Cedro I

No meio rural, a casa adota alguns dos elementos da residência urbana, incorporando outros desaparecidos com a urbanização da população, no período anterior. O acesso deixa de acontecer através de um corredor, quer central, quer lateral, utilizado na casa da cidade e passa a acontecer diretamente sobre uma sala, chamada “sala de visitas”. Aberto para essa sala, aparece, com a designação de “quarto da sala”, o antigo quarto de hóspedes da Casa Bandeirista. Sua localização, na parte fronteira da casa, isolado do restante da habitação, cria um certo distanciamento e respeito em relação aos moradores e às atividades do seu dia-a-dia. De acordo com Carlos Lemos (1999, p. 31),

Houve em toda casa roceira colonial a presença obrigatória de alojamento para hóspedes importantes no corpo da moradia, mas isolados das dependências familiares. Isolamento que tornou inevitável a definição de uma área de receber pessoas estranhas,

além do fato de estar o quarto de arreios, junto ao paiol, sempre disponível para uso como quarto de hóspedes para visitantes não tão importantes. Afirma ainda esse autor (1999, p.30) que era a hospitalidade um fator que ia além da simples cordialidade, era durante os primeiros séculos e até mesmo em princípios do século XX, uma obrigação social relacionada à própria sobrevivência da comunidade. Teria sido uma atitude normal em todo o meio rural no decorrer do século XIX.
Permanece a varanda, para o desenvolvimento das mesmas atividades já encontradas nas residências urbanas do século XVIII e mesmo das novas cidades implantadas no decorrer do século XIX. E é para essa varanda que se abrem, no novo meio rural, os quartos destinados aos seus moradores.
Em um plano mais baixo, aproveitando o declive natural do terreno, pode ser encontrada a área destinada ao serviço pesado: cozinha, despensa, depósitos, e, do lado de fora da casa, o forno, o monjolo, paiol e a bica d’água.
É interessante observar que, no geral, a casa rural se encontra sempre em uma meia encosta, com a fachada principal voltada para o aclive, aproveitando o declive para a instalação do setor de serviços, para onde é desviado, por força de gravidade, um rego d’água, de algum manancial de pequeno porte situado nas proximidades. Convém observar que a presença de um córrego é exigência fundamental e determinante na escolha do local para construção da casa. Essa água desviada e trazida para junto do novo edifício , tem a função de abastecer os serviços internos da residência, do engenho e do monjolo, além de fornecer água para os locais de criação e engorda de pequenos animais, como porcos e galinhas.

fazenda Paredão, às margens do rio São Marcos

Durante praticamente todo o século XIX e cerca de três quartas partes do século XX, a arquitetura rural desenvolvida em Goiás, apresentou uma certa hierarquização no que se refere à construção e organização dos edifícios residenciais, existindo os edifícios sede, com um grau maior de elaboração, acabamento e número de compartimentos e as casas dos empregados, mais simples, com número menor de compartimentos e acabamento extremamente rústico. Nas últimas décadas do século XX, esse último modelo deixou de existir, em decorrência das novas leis sobre o trabalho rural, que, de certa forma, fizeram com que fosse reduzido o número de funcionários por propriedade, além de demolidas as construções que passaram a se apresentar como desnecessárias.

fazenda Olaria, junto ao rio Corumbá

Também nas décadas finais do século XX, grande número de edificações representativas dessa arquitetura rural, foi demolido, em alguns casos para dar espaço a novos investimentos, em outros para dar lugar a novas edificações com materiais e técnicas construtivas mais contemporâneas.

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